Qui pourra te dire combien je t’aime

Por *Rosildo Barcellos

A fotografia faz parte da minha vida: por isso o título Qui pourra te dire combien je t'aime. (quem pode dizer quanto amo) Ademais, acredito na transmutação histórica do tempo quando estamos fotografando. Quando olho uma foto, não vejo as cores nem tampouco o ambiente. Vejo o tempo detido, percebo a memória. As fotografias valorizam e eternizam o momento solene do registro do estado de felicidade. Por isso me preocupa a ameaça de extinção a que está submetida a profissão de "lambe lambe", e este pensamento me fez recordar, que longe dos grandes estúdios fotográficos e das máquinas digitais, encontramos uma figura especial, ligada à esse passado não muito distante, mas considerado arcaico por muitos. Assim comecei a indagar ao redor sobre o tema e constatei que cada vez menos pessoas se aventuram a este ofício.

Agora pasmem os leitores que a máquina que deu origem a esta profissão foi fabricada no Brasil. Surgiu no início do século pela necessidade de um homem, Francisco Bernardi, de transportar com maior comodidade, todo o equipamento necessário para se obter uma foto em preto e branco. Essa atividade é tão diferente pois consegue aliar criatividade a uma natural e aguçada sensibilidade tátil, que foi o ponto de partida para o desenvolvimento do ofício, cuja nomenclatura foi sugerida por abarcar um gesto incomum no exercício da profissão, isto é, o teste que se faz para verificar de que lado está a emulsão de uma chapa, filme ou papel sensível. Para evitar o erro de colocar a chapa com a emulsão voltada para o fundo do chassis o que deixaria fora do plano focal e portanto com falta de nitidez, costumava-se molhar com saliva a ponta do indicador e do polegar e fazer pressão com esses dois dedos sobre a superfície do material sensível num dos cantos para evitar manchas.

Não podemos deixar que esses verdadeiros artistas sejam esquecidos em nossa memória e não podemos apenas contemplar as imagens desses "desconhecidos íntimos" e guardar em nossa gaveta do passado, devemos, sim lembrar que das milhares de fotografias esmaecidas produzidas pelos lambe-lambes e que hoje estão esquecidas ou desprezadas em velhas caixas; que cada uma delas representam os fios que tecem a história de sua família, de sua juventude, de sua cidade e por fim da sua vida. Louvável e certeira é a ideia da oficina de Lambe-Lambe na Cidade Branca de 11 a 14 de novembro no SESC Corumbá, paralelo ao Festival América do Sul, isso vai certamente fôlego novo a arte, pois quando olharmos uma foto com a alma deixamos de ser pessoas para sermos, lágrima, sorriso, história e elementos do cenário da vida. Uma foto lhe permite isto e muito mais, pra sempre!
 *Articulista