Cantinho do Betão - ZÓZIMO E ZORAIDE, UMA HISTÓRIA DE AMOR

Por Roberto Maciel (Betão)

Como Professor de Biologia, tive a oportunidade de passar aos meus alunos, em aulas de Genética, as várias teorias da hereditariedade. O bicho homem, quando não sabe, inventa. Na antiguidade, muitos anos antes de Cristo, os grandes sábios da época procuravam explicar aos seus discípulos os mistérios da hereditariedade e, com o decorrer dos tempos, várias opiniões foram discutidas entre os grandes estudiosos, todas elas desbancadas pelos cientistas atuais que comprovaram a hereditariedade graças à descoberta dos cromossomos e genes. Nossa história é baseada em uma dessas remotas teorias, que transportei para os dias atuais: a TEORIA DA PREFORMAÇÃO que dizia que o ser humano já estava pré-formado no interior do espermatozóde e que o óvulo só serviria de ninho para seu desenvolvimento. Esses minúsculos seres eram chamados HOMÚNCULOS e, com certeza, deveria haver uma MULHERÚNCULA para completar o casal. Em outra teoria, rezava-se que os espermatozóides do testículo direito gerariam homens e os do esquerdo, mulheres (não me lembro se era o vice-versa) mas, vamos à história de amor entre Zózimo e Zoraide, um homúnculo e uma mulherúncula, transportada para a nossa época, a era internetística, na qual ninguém mais quer saber de papo de velho, uma história que poderia ter dois finais, ou mais, conforme a situação.

Zózimo e Zoraide nasceram juntamente com milhares de irmãos na mesma época, em canais seminíferos de testículos diferentes. Eram vizinhos e, mesmo antes de entrarem na adolescência, um acabou descobrindo o outro através da INTERZÓIDE, usando celulares de alta potência, como iphone 7 e galaxy s7 que pegavam de tudo, desde ligações comuns e torpedos, até netflix, wats, instagran, snapchat, youtube e spotify.

Já maturados, donos de suas caudas, Zózimo e seus irmãos e Zoraide e irmãs, passaram ao estágio seguinte, a faculdade Epididimística, onde rolavam os ensinamentos do velho Mestre ARIZÓITELES e a bandalheira dos boys pré-adultos em baladas e inferninhos e foi numa dessas baladas, a vitrola e ponchezóides a go-go, curtindo e dançando ao som dos Zóiferes, que Zózimo e Zoraide se encontraram esperzoidemente pela primeira vez e a relação entre os dois começou. Passeios de barco pelo líquido espermático enquanto os mais afoitos surfavam nas proximidades do perigoso Canal Deferente, contrariando os ensinamentos palestrísticos do Mestre Arizóiteles.

"Não sejam impetuosos, meus jovens. A finalidade de vocês é a mais nobre de todas: a procriação. Colegas meus, devido a suas impetuosidades, foram vítimas de seus arroubos. Zóifocles não esperou a época certa e se perdeu numa polução noturna; Zóicrotes foi vítima de uma masturbação adolescentística, assim como muitos outros afoitos por emoções fortes. Alguns tiveram a sorte de participar de inseminações artificiais; outros, mais audazes na ânsia de chegarem primeiro, caíram num esmegma, confundindo óvulo com amídalas, indo parar numa fossa séptica. Eu mesmo, num trote universitário, fui empurrado pelos colegas e quando percebi que era masturbação, enrosquei minha cauda no prepúcio da mangueira, vendo meus colegas mergulharem no nada. Com muito esforço, quando a tempestade ejaculatória abrandou, voltei ao orifício uretral, conseguindo chegar de volta ao ponto de partida e hoje, graças a essa experiência, estou aqui vos passando meus ensinamentos. Portanto, meus diletos discípulos, não se aventurem nas proximidades do canal deferente antes que estejam preparados para isso".

Enquanto Zózimo e Zoraide absorviam sofregamente os ensinamentos do grande Mestre, os demais só pensavam na vida libertina do surf e do skate no canal deferente. Muitos chegavam a se aventurar até as proximidades do canal da uretra onde desembocava o ducto prostático que desaguava em determinado ponto, aumentando em muitas vezes a velocidade do líquido seminal, correnteza que lembrava um tsuname, jogando para fora quem estivesse no caudaloso rio.

Finalmente, o grande momento. A sirene anunciou o instante da partida definitiva para a procriação, onde aqueles milhares de boyzúnculos e cocotúnculas partiriam na busca frenética por um óvulo. O canal deferente se inundou, levando, em sua enxurrada, os milhares de espermatozóides que, no afã da competição, sabendo que só um deles cruzaria a linha de chegada ou, se por sorte, dois, caso a mulher produzisse dois óvulos ao mesmo tempo, gerando bivitelíneos. Nessa turbulência espermática, Zózimo e Zoraide, as caudas entrelaçadas, rezavam para que isso ocorresse e aí, pelo menos, seriam irmãos.

Ambos já sabiam, graças aos ensinamentos do grande Mestre Arizóisteles que seriam lançados num escuro canal vaginal e, ao passarem pelo colo uterino, a briga seria feia ao encontrarem o alvo pois somente um deles conseguiria perfurar a parede do óvulo e nele penetrar para dar origem ao novo ser. Era o momento da despedida: cada um por si e Deus por todos, não importando romances anteriores. Um duelo de vida ou morte.

Talvez, por ironia do destino, as baixas foram poucas pois aquela renca de espermatozóides, ao invés de cair numa vagina receptora, foi parar num banco de esperma onde, devidamente selecionados, seriam aproveitados nas inseminações artificiais.
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Numa festinha onde havia Cuba Libre, uma vitrola e uísque a go-go, música dos Feevers rolando, casais rodopiando pelo salão, celulares a todo vapor em zap-zaps e outros zaps celularísticos, naquele sem-diálogo bigode a bigode.Flashes espoucando em selfies que se perderiam com o tempo, sem registrarem os momentos da época, naquele flash-back relembrando os finais dos anos setenta.
Ele chegou, procurando um lugar para se acomodar naquele ambiente rescendendo a alegria, até que seus olhos bateram no balcão onde ela, solitária, degustava uma dose de ponche. Aproximou-se, convidando-a para dançar. Olhos nos olhos, ela aceitou dizendo que tinha a impressão de já tê-lo conhecido de algum lugar, ao que ele respondeu sentir a mesma coisa. Meu nome é Zózimo, disse ele e ela respondeu: o meu é Zoraide...