Cantinho do Betão - A MORTE DO GIGANTE

Por Roberto Maciel (Betão)

Henrique Meireles aspirou fundo o doce aroma das flores de murta que ornamentavam seu jardim. Era cedo, mas o trabalho o chamava.

Desceu, em passos lentos os degraus da escada de pedra-sabão que separava o jardim do portãozinho de entrada do sobrado. Passou pelos pés de murta que deixavam a grama do jardim ponteada por milhares de florezinhas brancas que caíram durante a noite. Destrancou o portãozinho de grade baixa e viu-se na calçada. Da sacada, a esposa acenou a mão num até logo. Naquela manhã, deixara o carro na garagem pois a esposa teria que levar a filhinha ao médico para exames de rotina e, aproveitando a brisa gostosa da manhã antes do calorão que viria a seguir, partiu, a pé para a firma que ficava a poucos quarteirões da residência.

Henrique Meireles, homem de bom berço, viera da cidade grande para o interior em busca de montar uma filial de sua loja de móveis antigos, entalhados em madeira de lei. Viúvo, sem filhos, adquiriu um terreno numa das principais ruas da cidadezinha que estava em ascensão devido à pecuária e à mineração, além da Marinha que sempre recebia figurões de alta patente. Nessa rua, ainda sem calçamento, construiu a casa de seus sonhos: um sobrado em estilo antigo que contrastava com as casas da rua, mas que nada deixava a desejar aos casarões dos pecuaristas da região.

Os cômodos, embora de boa metragem, ficaram pequenos, quando receberam o imenso mobiliário da época do Império. Tetos com lustres de pingentes de cristal de quartzo que refletiam a luz do sol quando as cortinas eram abertas, refletindo nas paredes as belas cores de arco-íris que mudavam de posição a cada sopro da brisa. Uma escada, em mármore, levava à sacada, de onde podia se observar a rua e as casas defronte.

Nos fundos, uma escadaria descia para os 72 de fundo do quintal onde as frutíferas atraíam a passarada que lá, além de fugirem dos estilingues, construiam seus ninhos e tinham alimento farto nas épocas de frutificação das várias espécies.

As enormes e grossas portas, trabalhadas em madeira nobre, tinham maçanetas de bronze luzidio, diariamente polidas pela empregada.

Uma varanda larga continha os pilares que sustentavam o teto abaixo da sacada e uma escada de três degraus descia ao pequeno jardim repleto de murtas.

O muro da frente, largo e baixo, era encimado por grades de ferro que combinavam com o pequeno portão de entrada.

Henrique Meireles, embora homem de muitas posses, era simples, tanto é que casou-se, em segundas núpcias com mulher humilde, dona de casa amorosa que lhe presenteara com uma linda herdeira, menina linda, tez quase albina, muito sensível à luz solar, cabelos loiríssimos caindo em cachoeiras de cachos até quase a cintura. Ficava sempre brincando nos degraus da varanda com suas bonecas e olhava a rua vendo as outras crianças correndo pela calçada, jogando amarelinha, brincando de pegador e esconde-esconde. Seu coraçãozinho batia forte quando via o garoto que morava na casa defronte, garoto esperto, cabelos lisos e pretos caindo em franja nos olhos castanhos e que, nas tardes, ficava na janela observando o movimento e quando ela estava na sacada, seus olhares se encontravam, trocando sorrisos.

Henrique Meireles chegou para o almoço e viu a filha brincando na varanda, divertindo-se em cutucar com um cabo de vassoura, o sino-dos-ventos pendurado no principal pilar que sustentava o telhado abaixo da sacada. O tilintar dos pinos de metal se chocando, produzia um som mavioso, comparado a uma canção natalina.

A menina, ao perceber a chegada do pai, deixou a diversão e correu em sua direção, os cachos dourados dos cabelos balouçando ao sabor da brisa e atirou-se em seus braços. O homem osculou as faces pálidas da filha, seu maior terouro pelo qual daria toda sua fortuna.

Durante o almoço notou uma leve sombra de tristeza nos olhos da esposa que, mais tarde relatou-lhe o ocorrido no consultório médico.

Henrique Meireles deu alguns telefonemas e, no dia seguinte, bem cedo o carro deixou a garagem, levando a família para a capital.

Por intermédio de uma imobiliária, a loja de móveis e a oficina de eletrônica para carros situada ao lado do sobrado, foram vendidos. A residência foi, aos poucos, se deteriorando ao passar dos anos, sob a influência do tempo. A tinta cor-de-rosa da parte externa foi, aos poucos, desbotando; as grades de ferro do muro e do portão foram sendo tomados pela ferrugem; a teia de aranha tomou conta da linda varanda e as maçanetas de bronze das portas cobriram-se de zinabre.

As murtas do jardim secaram e o frutífero quintal foi abandonado pelos pássaros. Somente o sino-dos-ventos continuava a tocar sua suave melodia natalina ao sabor da brisa, agora assustando as pessoas que passavam em frente do sobrado cor-de-rosa.

OBS. -ESTE ENSAIO PODERIA FAZER PARTE DO CONTO "A MOÇA DO SOBRADO C0R-DE-ROSA", DO LIVRO PIMENTA MALAGUETA, DO AUTOR DESTE ARTIGO E QUE, POR MERA COINCIDÊNCIA, SE ACHA À VENDA NA BANCA DO NATÉRCIO.