Cantinho do Betão - HISTÓRIAS DO BETÃO I

Por Roberto Maciel (Betão)

Hoje vou dar uma de contador de histórias. A primeira delas muito me lembra os velhos tempos do GTAAC e que pode ser transformada até numa pequena peça teatral.

O BOM LADRÃO
Professor Jesuíno, setentão aposentado, saía do boteco, caminhando pelas ruas desertas e mal iluminadas quando, a certa altura foi abordado por um cidadão que lhe encostou na barriga, um canivete.
Ladrão 1 - parado aí, tiozinho. Isto é um assalto. Vai passando logo o falante e a grana meu.

Jesuíno - só se for o cartão do SUS pois o de crédito deixei em casa. Tá zerado mesmo. O pagamento não saiu e quando sai, já sou assaltado pelo LEÃO, pela farmácia, pela companhia de luz, de água e pelo mercado.
Ladrão 1 - Pô, meu, que pobreza. Então passa o celular.

Jesuíno- (tirando o celular do bolso) - Não vai lhe ter serventia nenhuma. Tá "pai-de-santo". É mais um assalto que ocorre quando coloco um pouquinho de crédito. Além disso, é celular de velho cego. Tem números grandes, não tem internet e mal e porcamente tira fotografia.

Nessa hora aparece um segundo ladrão.
Ladrão 2- E daí, brodi, tá depenando o tiozinho aí? Grana boa?

Ladrão 1- Que nada, mano, o matuza aí é Professor aposentado. Tá teso só cartão do SUS e o falante é pré-jurássico.

Ladrão 2- Então fura ele logo, mano. Comigo é assim. Não tem grana boa e nem celular com internet, não merece viver. Anda, meu, fura ele logo e vamos se mandar. Tem monte de trouxa esperando prá ser assaltado.
Ladrão 1- Tô parando hoje, meu. Já tive uma noite boa. Vou é prá casa.

Ladrão 2 - Leva pelo menos o celular do matuza. Deve valer, pelo menos uns dois baseados lá na boca do Zelão.

Jesuíno - Pombas, vocês vão me assaltar ou me furar. Resolvam logo, que eu tenho hora prá chegar em casa.

Ladrão 1- cala o bico aí, tiozinho. Depois eu levo um lero contigo. Deixa primeiro eu desatar um nó com o mano aqui. (para o ladrão 2) - olha aqui brodi. O assaltado é meu, tá na mira de meu cortante de modo que quem cuida da situa sou eu.

Ladrão 2- Seu cortante tá com o matuza, meu, tu deu prá ele segurar prá zoar comigo. Pô, mano, tu fumou bosta de vaca?

Jesuíno- Bom, tá na minha hora, meu alvará já venceu e se eu não estiver em casa em 10 minutos, a patroa me mata. Toma seu canivete e bons assaltos prá vocês.

Ladrão 1- Pô, desculpa aí, tiozinho, mas vou ficar com seu falante pois tem um mano meu no presídio que está precisando de um desse tipo (tira do bolso um celular de última geração, oferecendo-o a Jesuíno) - Toma este aqui, tiozinho. Gostei pacas de ti e quando eu era criança passei por tempos difíceis, pois meus pais também eram Professores. Leva também estes quinhentos prá ajudar nas despesas.

Jesuíno - Não vai fazer falta não?

Ladrão 1- Faz não, mestre. Logo encontro mais um filhinho-de-papai e faturo o dobro. Vai, meu, puxa o carro.

Ladrão 2- Putaquepariu, mano. Tu cafungou pó de giz mesmo... Vou me mandar mesmo prá algum ponto de ônibus prá ver se faturo algum.

Jesuíno segue seu caminho, todo faceiro de celular novo e quinhentão no bolso quando, na próxima esquina. ..
Ladrão 2- Mãos prá cima, matuza. Passa o falante e a grana.

Jesuíno (reconhecendo o ladrão) - Caceta, meu! Acabei de ser assaltado por seu parceiro que levou meu celular e me deu este e você já vem me roubar? Eta classezinha desunida... Toma, leva logo essa merda e me deixa em paz (entrega o celular e o dinheiro).
Ladrão 2- Passa também a carteira e os documentos. Vamos, vamos, senão leva uma bala nos cornos.

Jesuíno- Pôxa, cara. Dá um trabalhão tirar segunda via...

Ladrão 2- Que se dane. Anda, passa logo.

Jesuíno - Não.

Ladrão 2- (apontando o revolver para a cabeça de Jesuíno) - bora logo com isso, matuza pois tem monte de trouxa prá ser assaltado e tu só fica empatando meu tempo.

Jesuíno- (sentindo que não tinha mais jeito) - Taqui, cara. Não quer levar também minha camisa, minha calça e meu tênis?

Ladrão 2 - Sai fora, mano, só uso roupa de marca. (vai saindo quando Jesuíno o chama).

Jesuíno (sarcástico) - Não vai me dar nenhum brinde?

Ouve-se uma sirene de polícia.

Ladrão 2- Toma esta banana de dinamite e vai estourar um caixa eletrônico (sai correndo e deixa Jesuíno com a bomba na mão).

O camburão para e Jesuíno tenta esconder a dinamite.
EPÍLOGO- Os dois ladrões foram presos e dormiram todos na delegacia. No dia seguinte, na presença de seu advogado, Jesuíno contou toda a história e, com o depoimento do Ladrão 1, foi posto em liberdade. Ao passar pela cela onde estavam os dois ladrões, o Ladrão 1 gritou para Jesuíno.

Ladrão 1- Mestre, quando estiveres lá fora, lembra-te de mim.

Jesuíno- Não se preocupe, Dimas, pois amanhã mesmo providenciarei um "Habbeas Corpus"...