Cantinho do Betão - SERÕES DE SEO NHONHÔ IV

Por Roberto Maciel (Betão)

Naquela noite em que Seo Nhonhô me deixou no hotel, após eu ter passado o dia com ele em sua casa, nem tomei banho. Caí direto na cama, tanto era a cachaça, que dormi feito um anjinho.

Passei a manhã inteira no chazinho de boldo e melancia gelada para curar a ressaca. À tarde, após um bom almoço no restaurante próximo ao hotel, digitei o artigo e mandei para o jornal.

O boteco TOCA DO TITIO estava em polvorosa quando cheguei, lá pelas 8 e meia da noite. Seo Valmir veio me receber com um sorrisinho maroto nos lábios, levando-me à minha mesa favorita onde já me esperavam alguns dos amigos mais chegados. Havia um lugar reservado, que, com certeza, era para Seo Nhonhô e, pelo arzinho de gozação da galera, percebi que o Negão safado havia passado por lá depois que me deixara no hotel...

Estava rolando festança política patrocinada pelo candidato à Prefeitura e o cheiro de lombo de leitão no tacho, fritos pelo Mestre Carniça, me fez vir água na boca.

Num emendado de mesas, o candidato e sua cúpula enchiam o rabo de uísque e davam altas risadas, talvez dos trouxas que nele votariam em troca de suas promoções. Num canto, próximo a um palco improvisado, dezenas de sacolões que seriam sorteados no andar da carruagem.

Seo Nhonhô chegou só depois das nove Sempre fazia suspense, principalmente quando a casa estava cheia pois, quanto mais gente para ouvir seus causos, maior ficava sua popularidade. Passou pela mesa do candidato, cumprimentando-o e dizendo em alto e bom som que se ele, se eleito, não cumprisse toda a merdança que ia vomitar daí a pouco, sentiria a mão do povo, não importando promoções nem mimos.

- I aí, Guri, já miorô do porre di onti? - disse-me ele, logo que encostou na mesa. Deu uma risada estereofônica quando bateu em meu ombro. Sentou-se na cadeira que lhe fôra reservada, e, logo em seguida, Seu Valmir trouxe os dois copos de cachaça e a cervejinha de praxe. O Negão tirou a perereca da boca, mergulhando-a num dos copos e, numa só beiçada, detonou o outro, estalando as gengivas.

- A minininha aí tem que tá bem limpinha i disinfetada prá mode mordê esse porco no tacho - disse ele, referindo-se à dentadura mergulhada no copo.

- Seo Nhonhô, o Senhor já fez exame de próstata? - perguntei, antes que ele pudesse continuar.

- Mi pareci qui o Guri tá inté quereno si vingá, né, mais vô sastifazê sua curiosidade i di todo mundo qui eu sei qui tá loco prá iscuitá i nunca tivero cu pra priguntá. Sigura aí qui lá vai - completou ele, tomando meio copo da cerveja.

SEO NHONHÔ NO PROCTOLOGISTA
A essa altura dos acontecimentos, várias mesas, discretamente arrastadas para perto das nossas e o balcão vazio de curiosos que se acotovelavam nas proximidades, compuseram o clima de que tanto o contador de causos gostava. Até o candidato e sua curriola de puxa-sacos se aproximaram discretamente. Vendo-se senhor da situação, Seo Nhonhô deu mais uma beiçada na cerveja, colocou a dentadura já assepsiada, deu um sorriso largo ao público e mandou ver:

- Quano eu era um Guri novo, de uns 60 anos, escuitei falá nesse exame di prósta. Dizque o Dotô infia o dedo no fiofó do homi prá modi vê si num tá cum doença ruim. Fiquei meio veiaco puis uví dizê qui tinha homi qui acabava gostano i virava viado. Deus mi livre i guardi dessas coisa, voti... Mas comu Zefa ficava buzinano na minha oreia, dizeno qui eu era mariquinha i tinha medo di assumi, arresorvi fazê u sacrifíço. Quano chegamo na cidade, eu mais Zefa, nóis tava cum uma baita fomi i paremo num ristoranti prá modi cumê uma buchada di bodi e adispois fumo pru consurtório do Dotô. Quano vi os homi saíno di lá cum as cabeça baxa i di perna aberta, até qui mi deu vontadi di corrê. Intão Zefa falô qui nun duía nada i eu arrespondi qui nun ia sê no dela... Foi então qui ela mi juntô pela oreia i mi jogô na mão daquele bruto di homi di ropa branca qui mi arrastô prá uma sala, mi mandô tirá as carça. Como o homi dava dois di eu, não teve jeito. Fiquei de cata-cavaco in cima da cama i oiano di rabo-di-oio ví os dedão do homi. Dava pra inlaçá três garrafa di cerveja, não pelo garguelo, mas pelo meiu... Intão ele botô num dos dedo, no fura-bolo, uma daquelas coisa di borracha qui as gurizada põe no pinto pra modi fazê bubiça. Minha barriga deu uma roncada quano aquele dedão fardado veio na direção du meu fiofó. Trinquei os denti da dentadura, fechei os óio i isperei, Foi intão qui o bucho deu um tranco e u fiofó jogô na cara do dotô, toda aquela buchada-di-bodi qui eu tinha armoçado. Intão pensei cumigu mesmo: daqui só sai i num entra nada. Inté hoji tô vivu...

O som de um sino alertou o povão para o início da festança e, logo após o falatório do candidato, dois sacolões seriam sorteados e a comilança seria servida. Na nossa mesa já havia mais de 20 cervejas e o candidato, antes de subir ao palco, bateu em meu ombro e disse que as geladas e todas as demais que nós tomássemos, já estavam pagas, Disse-me também, ao pé-do-ouvido, para ressaltar bem seu nome no jornal e recomendá-lo como candidato a Governador nas próximas eleições.

Sem que percebêssemos, Seu Nhonhô, que pedira licença para um mijão, sumiu sem de ninguém se despedir.