A leveza branca do Pantanal

Por *Marilene Rodrigues

Era uma vez num reino muito, muito distante de planície alagável nasceu um lindo bebezinho. Para festejar seu nascimento foram chamadas as fadas do reino: Sr. Minhocão, Frei Mariano e Mulher de Algodão, as quais lhe presentearam com dons mágicos.
           
Aproximando-se da criança, o Sr. Minhocão disse:
           
- Eu lhe trago a paciência e a beleza do Rio Paraguai.
           
Era a vez de Frei Mariano:
           
- Eu lhe trago a firmeza e a determinação na sua caminhada.
           
De repente, entra no salão real uma visita inesperada, a Noiva de Ladário, que ficou muito chateada por não ter sido convidada para aquele momento especial, então lançou uma maldição sobre a criança.
           
- Estão em festinha e não me convidaram?! Mas, eu também vim trazer o meu presente, afinal, uma noiva abandonada no altar tem muito a oferecer.
           
O rei desesperado implorou:
           
- Por favor, eu peço perdão pelo que fiz. Esqueça tudo o que houve!
             
A rainha também suplicou:
           
- Nosso bebê não tem culpa de nada. Ouça meu apelo de mãe!
           
Ignorando os clamores, a Noiva de Ladário aproximou-se do bebê e disse:
           
- Esta criança ao completar 16 anos de idade se afogará na cuia de tereré.
           
Após lançar sua maldição, a Noiva de Ladário retirou-se do salão real erguendo seu véu gigantesco.
           
O silêncio naquele recinto foi profundo sendo interrompido pela chegada atrasada da Mulher de Algodão, que ao saber do ocorrido comoveu-se e acalmou a todos dizendo que poderia resolver esse infortúnio, pois ainda não havia dado o seu presente.
           
Ao olhar para o pequeno indefeso disse:
           
- Que criança linda! Você não morrerá, apenas cairá num sono desmedido e se despertará ao som da leveza branca do Pantanal.
           
Apavorado pela maldição da Noiva de Ladário, o rei decretou que fossem destruídas todas as guampas do reino o que causou uma enorme tristeza em seus súditos, pois o tereré era tido como uma bebida sagrada, essencial a qualquer hora do dia.
           
Ao completar 16 anos, Pepe era um belo rapaz que encantava a todos por sua graça, beleza e bravura. Um dia ao desvendar os cômodos do castelo viu um servo, às escondidas tomando algo que lhe parecia ser muito saboroso em um copo que lhe lembrava um chifre de boi. Sentiu uma vontade irresistível de também experimentar.
           
Ao tomar o delicioso tereré, o jovem príncipe desmaiou.
           
Muitos tentaram desvendar as palavras ditas pela Mulher de Algodão trazendo ao castelo tudo que remetia ao branco, assim trouxeram toneladas de algodão sem nada adiantar. Trouxeram todos os cavalos brancos para trotarem pelos corredores do castelo. Houve quem capturasse todas as flores dos camalotes. Tudo em vão.
           
Cansados das tantas tentativas frustradas, o rei e a rainha passavam o dia e a noite ao pé do leito do jovem príncipe.
           
Devido às muitas queimadas no Pantanal, os animais começaram a procurar abrigo no reino. Uma família de tuiuiú fez seu ninho na mais alta torre do castelo, justamente onde ficava o quarto do príncipe que abriu os olhos ao ouvir a leveza branca do Pantanal e todos ficaram felizes para sempre.
           
Em agradecimento a fada Mulher de Algodão e ao tuiuiú o príncipe Pepe tornou-se um grande defensor do Pantanal. *poetisa