Cantinho do Betão - HISTÓRIAS DO BETÃO II

Por Roberto Maciel (Betão)

Imagine só você, boysão de uns 16, 17 anos, se engalanando para um encontro com a gatona: aquele banho demorado, esfregado com o famoso sabonete preto; aquele "parfun di sovac" de boa marca; aquela calça de nycron bem vincada combinando com a camisa de linho dura de goma; a cara bem lisa, as penugens raspadas com o aparelho de barba do papai; o toque de Lancaster no detrás das orelhas, lutando para armar um topete a Elvis Presley na cabeleira empapada de brilhantina Glostora, diante de seu melhor amigo, o espelho do armarinho do banheiro. Lenço perfumado no bolso e o inseparável pente Flamengo bem escondido no bolso direito da calça (no esquerdo estava a carteira com a grana da mesada). Lindo né?

Agora, imagine você, diante de seu melhor amigo (o espelho do armarinho do banheiro), com a cara toda amassada pela noite mal dormida, uma ressaca filadaputa do porre que tomara por conta do primeiro chifre...

ESPELHO, ESPELHO MEU
Na época em que os deuses conviviam pacificamente com os terrenos, muitos deles, com o velho pretexto de viagem de negócios, vinham à Terra para cornear suas divas com as fogosas terráqueas. Bacanais em motéis de luxo, orgias em clubes de campo e, alguns deles, como hoje em dia, na politicalha atual, tinham foro privilegiado e eram isentos de pagarem pensão, deixando como garantia, os possíveis filhos que eram chamados de semideuses. Os deuses que não gozavam dessa regalia tinham que se contentar nos moitéis da vida, bubiçando com as Ninfas que habitavam os bosques, pratos prediletos dos Faunos (metade homens, metade bodes), que também moravam por lá. Como a história não se refere a Ninfos ou Faunos, os bacanais entre Faunos e Ninfas eram constantes e sem procriação. As Ninfas eram mulheres lindas e sedutoras (daí o termo NINFETA, dado hoje às meninotas baladeiras e boazudas).

Naquele bosque, por incrível que pareça, havia uma Ninfa virgem chamada Liríope, que resistia ao ataque dos Faunos tarados, pretendendo só liberar seu bem mais precioso a algum deus, sofrendo "bulling", tanto das outras Ninfas, como dos próprios Faunos, que a taxavam de sapatão, pejorativo que não a atingia, continuando sua vidinha simples, fazendo ouvidos moucos aos comentários maldosos, sempre a espera de um Príncipe encantado. Em suas orações, pedia a Zeus que lhe mandasse um deusinho, nem que fosse do escalão mais baixo da linhagem deusística (nos tempos de hoje, um vereadorzinho).

Preces atendidas e a Ninfa Liríope se encontrou com o deus-rio, Cephisos (assessor de Netuno, o deus dos mares), não sob o linho alvo de um motel de luxo, mas ali mesmo, atrás de uma moita de murtas, cujas flores se encarregaram de aromatizar aquele ninho de amor e, em uma semana (enquanto o período da gestação humana é de 9 meses, entre a galera bosquiana e os deuses não passava de 7 dias), nasceu NARCISO, rebento de extrema beleza, uma espécie de cruzamento entre Tom Cruise e Brad Pitt (Neimar está fora pois a beleza do bolso não era tão importante naquela época).

Quando Narciso nasceu, sua mãe consultou o adivinho TIRESIAS que lhe predisse que NARCISO viveria muitos anos, desde que nunca conhecesse a si mesmo.

NARCISO, pobre como era (Cephsus não pagava pensão), teve que fazer o Ensino Fundamental e antes da implantação do novo Ensino Médio nas Escolas Estaduais, foi banido de volta para o bosque onde morava, tendo em vista as brigas e até alguns suicídios das coleguinhas que pelejavam no afã de conquistarem sua beleza.

Foi aí que o bicho pegou. A brigaiada entre as Ninfas pelo amor do belo semideus, provocava puxões de cabelo e arranca-roupa nas baladas bosquianas quando NARCISO entrava. O mancebo sentava-se ao balcão, pedia um néctar de frutas e ficava observando casais apaixonados de Faunos e Ninfas no maior agarro e não entendia a causa das brigas entre as ninfetinhas. Embora levasse tremendas cantadas, nenhuma delas, apesar de formosas, não o interessava. Como gostaria de se apaixonar como todos os outros. Pelo bosque, via sempre casais de aves e animais que se acasalavam e procriavam... às vezes se pegava à sombra de algum arvoredo, cheirando uma florzinha, sendo sempre observado por alguma das Ninfas.

Emputecidas com a indiferença do gostosão e com os chistes dos Faunos que diziam ser ele uma florzinha, as Ninfas entraram na justiça com um pedido de maldição sobre NARCISO: "Que NARCISO ame com a mesma intensidade sem poder possuir a pessoa amada". Esta maldição, após passar por todas as instâncias, foi parar nas mãos da divindade punidora, a poderosa Nêmesis (uma ascendente histórica do Juiz Moro), que imediatamente sancionou o processo e mandou que a maldição constada nos autos, fosse executada.

Foi então que naquela manhã ensolarada de uma segunda-feira, em que NARCISO se achava sentado à sombra de um ipê florido, à beira de um lago de águas cristalinas (nos finais de semana Faunos e Ninfas usavam a área como balneário onde liberavam toda sua libido em homéricos bacanais) que a maldição se cumpriu. NARCISO ficou com sede e ao se inclinar sobre a lagoa, no afã de degustar das águas cristalinas, viu sua imagem refletida na superfície. Gamou. Nunca tinha visto alguém tão belo. Com o coração batendo a mil por hora, pulou para as águas em busca do grande amor de sua vida e, após várias tentativas inúteis, caiu exaurido, à sombra do ipê florido e, aos poucos, ante os olhares estupefatos de Faunos e Ninfas, foi se transformando em pó que sabia à bosta de gado e, naquele adubo, brotou uma linda flor amarela com pétalas brancas que se chamou NARCISO. Foi então que um dos Faunos falou: eu não disse que aquele cara era florzinha?

Este foi, talvez o primeiro passo para a criação do espelho que hoje, uma hora pode ser seu melhor amigo e, em outra, seu algoz. Foi o que vocês viram na introdução desta história.

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Nas academias, cujas paredes são espelhadas, você se acha o máximo após uma série de exercícios. Nos parques de diversão você dá risadas ao ver sua imagem deformada nas várias formas de espelhos. Em resumo, o seu melhor amigo é mesmo o espelho do armarinho do banheiro onde você se vê como quer: sempre lindo e formoso quando pronto para um encontro. Desde que você evite olhar para ele com cara ressaqueada.

O pior de todos os vilões é o espelho do provador de roupas das lojas. Nele você se vê no futuro, uns cem anos mais velho, mesmo que tenha saído da academia após uma forte aula de musculação.