Cantinho do Betão - SERÕES DE SEO NHONHÔ V

Por Roberto Maciel (Betão)

Eu já estava ficando encafifado com a atitude de Seo Nhonhô, aquele que chega e sai de repente, quase só aparecendo em dias de festança política. O pior é que ninguém percebia suas saídas estratégicas.

- Esquenta a cabeça não, seu moço - disse-me o Professor - ele sempre foi assim, um mistério. Apareceu um dia, ficou, conquistou todo mundo com suas histórias. Ninguém sabe de onde veio, onde mora e como ganha a vida pois sempre está com dinheiro e paga as contas direitinho.

- Eu sei onde ele mora - disse eu - já fui em sua casa, bebi e almocei com ele e com a Zefa.

Naquela noite a TOCA DO TITIO estava meio parada. Poucos fregueses, mas, mesmo assim, mestre Carniça caprichava um caldão de mocotó, pataca, rabo e orelhas suínas prá mode espantar o friozinho da noite naquela mudança brusca de tempo. Ventava sul e aquele ventinho doía até na alma e só mesmo um conhaque e um caldão para aquecer.

Seo Valmir baixou as enormes cortinas de lona que cercavam o varandão, logo que o tempo começou a arrumar-se para uma tempestade. O vento começou a assobiar por entre as árvores, carregando o céu com negras nuvens. Clarões de relâmpagos iluminavam a escuridão da noite e, de quando em vez um raio ziguezaguiava entre as nuvens e se estatelava nalguma árvore ao longe, cortando os sinais dos celulares que mandavam e recebiam mensagens zapzapeanas. Aí os presentes voltavam a assuntar. O cheiro forte dos palheiros não abafava o delicioso aroma do caldão porquífero do mestre Carniça. - Atocha pimenta nesse trem prá mode atiçar as hemorróidas desse povo, cozinheiro.

Foi então que as luzes se apagaram, deixando o recanto às escuras, só iluminado pelos clarões dos relâmpagos. A máquina de som emudeceu e Seo Valmir, após acender os lampiões bem arranjados em pontos estratégicos do boteco, jogou, nas mãos dos entendidos, dois violões e uma sanfona e, sob a luz mortiça dos lampiões o chamamé correu solto, entremeado por ecos agudos dos mais afoitos.

O clarão, seguido de um forte estrondo arrepiou até os pelos dos furicos dos mais valentes. A sanfona e os violões calaram seus acordes e, como uma combinação, todos voltaram os olhos para a entrada do varandão. No entreaberto da cortina, um vulto, parcialmente iluminado pelas luzes bruxuleantes dos lampiões, cujas chamas dançavam ao sabor do vento que entrou no abrir da cortina. Era ele.

Seo Nhonhô bateu o chapelão nas pernas, prá mode retirar a poeira, dando aquela sua famosa gargalhada estereofônica ante as caras assustadas dos presentes. Outro estalo e o chuvaréu desabou.

Após um "bas noite", Seo Nhonhô dirigiu-se à nossa mesa e Seo Valmir trouxe, de imediato, os dois copos de cachaça e a cervejinha triscando de gelada. A queda de energia em nada afetara a bebida pois para economizar, o proprietário as acondicionava em geladeiras a querosene. Enquanto as mesas, discretamente se aprochegavam, Seo Nhonhô, emborcando o quebra-gelo, arrumou a garganta e começou.

CAÇA AOS QUEIXADAS
Era di noiti, um luão craro iluminano o mato, i eu tava na batida di uma onça qui andava comeno minhas criação i jurei qui num vortaria prá casa sem o coro da bichona. Andei, andei percurano um rasto da bicha, inté qui Fido, meu fier cumpanhero, bateu as fuça num puta pezão. Alevantô a cabeça, fungô o ar, isticô o rabo i levantô a mão canhota, apontano a direção. Oiei na direção apontada i vi, a uns cem metro dali, detrás di uma moita di braquiara, istirada na riba di um tronco de pau seco, a disgramada. Na luz da lua pudi vê a beleza da pintadona. Aquele coro ia ficá bunito istirado no pé da minha cama. A fila da mãe divia tá dano um cuchilo prá mode, adispois, cumê argum dos meu cabrito. Perparei a frobé, botei a bichona na mira, percurano um dos óio prá mode num istragá o coro, quano, di repente ela alevantô a cabeça, mexeu as oreia i, oiano na minha direção, deu um urro saino im disparada mato adentro. Fido arrupiô os pelo do cangote, oiô prá trás i si mandô na mesma direção da onça. Foi intão qui iscutei um baruiu nu meio du mato. Um baruiu qui paricia di dente bateno i oiei prá trás. Uma vara di javali vinha dirrubano tudu que istava na frente, i vinha na minha direção. Joguei a frobé, prá mode diminuí o peso i finquei o pé na mesma dereção da onça i do Fido. I os bicho atrais, dirrubano mato i bateno denti. Curri, curri, inté qui vi um baita pé de pau. I os bicho na minha cola, já bem perto, bateno os dente di raiva. Num sarto, pindurei num gaio na hora im qui um delis quasi mi alcançava. Tirei u pé bem na hora i subi u mais arto qui pudi i mi acomodei num gaio grosso inquanto a bicharada ficava lá imbaixo, istralano os denti i tentano subi. Inda bem qui aqueli pé de pau era u mais arto qui tinha pur perto.

Nessa altura do campeonato, eu e os demais ouvintes já suávamos frio, apesar do tempo. A salvação da lavoura foi a tigelada de caldo quente que mestre Carniça colocou na mesa, após retirar as inúmeras garrafas de cerveja e renovar o estoque. Lá fora só se ouvia o barulho da chuva, dos raios que caiam e os clarões dos relâmpagos.

- Sinti uma lambida na minha cara. Era Fido, qui passô do gaio vizinho, pro gaio adondi ieu istava, i notro gaio, tava a onça, bem incuidinha di medu. I us bichu num arredava os pé lá de baxo. A onça pulô pru meu gaio i si a gente num si sigura, quasi qui nois vinha pará na dentaia dos porco. Foi intão qui mi alembrei di um causo quasi iguar qui tinha acunticido cum meu bisavô. I, cuchichano nas oreias di Fido i da onça, tirei meu pilingo i verti água prá riba da porcaiada. Fido levantô a perna i feiz a mema coisa. A onça siguiu u exempro i foi aquela mijação danada. Como os quexada num gosta di homi, nem di cachorro i nem di onça, quano sintiram a catinga do nosso mijo nos cangoti, começaro a um atacá o oitro, acabano tudo morreno. Intão nois decemo do pé de pau i ieu falei prá onça qui si ela aparecê lá im casa prá mode cumê meus bichu, leva chumbo.

* Seo Nhonhô pediu licença para ir ao banheiro e, um minutinho depois, parti em seu encalço. Ao abrir a porta, ninguém. O negão tinha sumido de novo.