Cantinho do Betão - HISTÓRIAS DO BETÃO III

Por Roberto Maciel (Betão)

A história que vou contar hoje, é a realidade em que vivemos e que se mistura no tempo, mesclando passado, presente e futuro.

ALI BARBOSA E OS TROCENTOS LADRÕES (parte 1)

Barbosa, grande latifundiário, possuía uma imensidão de terras, ricas em matos, rios piscosos, flora e fauna abundantes, que faziam inveja aos grandes latifundiários de outras plagas. Suas matas eram consideradas os pulmões do mundo e sua riqueza mineral colocava suas terras no topo do mundo, apesar de que uma boa parte fora tirada por aventureiros que se diziam descobridores. Mesmo assim, Barbosa conseguira botar as coisas nos eixos e sua propriedade continuava a todo vapor.

Um dia, Barbosa percebeu alguma coisa errada. Enormes cupins devastavam suas matas e tatus perfuravam suas terras e as riquezas que brotavam eram levadas por esquilos colecionadores de material brilhante. Castores começaram a erguer barragens nos rios, desviando seus cursos, secando terras férteis e alagando outras, dizimando flora e fauna. O tempo, as estações do ano, que eram todas regulares, passaram a sofrer modificações, esfriando no verão, esquentando no inverno. Tempestades ocasionais maltratavam as plantações, prejudicando as safras que geravam o seu ganha-pão. Parecia até que a natureza estava revoltada, devorando todo o fruto de seu árduo trabalho.

Certa noite, Barbosa tomava uma cachacinha na varanda de seu rancho quando ouviu um urro de gelar o sangue e a partir dessa noite seus bens começaram a desaparecer. As economias que guardava para garantir uma velhice tranquila foram desaparecendo a cada rugido do animal, uma vez por mês e, de mãos atadas, começava a desanimar.

Certa noite, largou-se na cama, já meio mamado e teve um sonho: caminhava por uma estrada repleta de árvores carbonizadas pelos múltiplos incêndios, quando viu uma enorme montanha e uma voz cavernosa que lhe dizia: ALI, BARBOSA... ALI, BARBOSA.

Esse sonho perdurou por várias noites seguidas, até que um dia, Barbosa, já de saco cheio, ligou seu GPS e # partiu para desvendar o grande mistério desses seus sonhos. Andou, andou, até que, bem orientado pelo GPS (que não era paraguation), viu-se no sopé da grande montanha que perturbava suas noites oníricas. Tentou chegar perto de um lugar que parecia ser uma enorme porta de pedra, quando ouviu aquele horrível rugido. A princípio, tremeu nas bases e sentiu a barriga querendo chamar o barroso. Um rugido mais perto fê-lo correr para uma moita próxima e, enquanto se aliviava, o dono do rugido apareceu, farejando o ar. Era um puta leão e tinha no pescoço uma coleira verde-amarela. A fera deu uma sacudida na juba e, virando a cabeça, tirou do lombo um saco, depositando-o aos pés do que parecia ser a porta de uma caverna. Farejou novamente o ar, levantou uma das pernas e deu um mijão no sopé da montanha. Novamente o leão farejou o ar e fixou os olhos na moita em que se achava o Barbosa. Deu um urro tão horripilante que até os pelos do lordo do Barbosa se arrepiaram. Nosso herói, sem perda de tempo, meteu o pé na estrada e foi então que a voz misteriosa que ouvira nos sonhos, lhe disse: - DEIXA DE SER FROUXO, HOMEM; É ALI, BARBOSA... É ALI, BARBOSA... GUENTA AS PONTAS QUE É ALI, BARBOSA.

Ouvindo tropel de cavalos, Barbosa procurou esconder-se o melhor que podia porém, sem perder de vista o leão e a porta da caverna. Ao perceber a aproximação dos cavaleiros, o leão tornou-se um gatinho, ronronando feliz e se esfregando numa árvore próxima.

À frente da comitiva, um homem imponente, peito saliente quase arrebentando os botões da camisa social, encimada pelo paletó preto. O leão correu para ele, com a sacola na boca mas recebeu um chute no traseiro. - Isso é mixaria comparado com o que nós trouxemos - disse o peitudo e completou: - preciso baixar logo uma portaria aumentando a taxa dos impostos que você arrecada. A comitiva que o acompanhava, num gesto de puxassaquismo, explodiu em palmas. Foi então que Barbosa reconheceu o grande chefe. Era MIGUELÃO, O TEMERRÍVEL, mais conhecido como peito-de-pombo e sabonete (sempre processado, escorregava daqui e dali, acabando sempre se saindo bem das mais difíceis situações).

Miguelão, parando em frente à porta da caverna, bradou em alto e bom som: ABRE-TE, SÉZAMO. A imensa pedra que servia de porta, abriu-se lentamente, dando passagem à comitiva que trazia bornais pejos nas ancas dos cavalos e assim que todos entraram, Miguelão, o Temerrível, berrou lá de dentro: FECHA-TE SÉZAMO. A porta se fechou.

Barbosa guardou bem aquelas palavras e foi para casa prometendo voltar no final do mês, dia em que o leão estaria arrecadando os impostos e a entrada da caverna estaria livre.

Naquela noite, apareceu em seus sonhos um motoqueiro, todo de branco, cabelos longos e barba no rosto. Tinha um olhar penetrante e, ao mesmo tempo, suave e manso. Barbosa, quando ele falou, reconheceu nele o dono daquela voz dos sonhos anteriores.

- BARBOSA, SEU FILHO DA MÃE, SÓ VOCÊ PODERÁ SALVAR SEUS BENS. ANDA, MOSTRA SUA CARA E LUTE. NÃO POSSO INTERVIR DIRETAMENTE, MAS DEIXAREI DOIS TELEFONES DE PESSOAS QUE PODEM LHE AUXILIAR. BOA SORTE.

Dizendo isso, o homem misterioso acelerou a moto e saiu voando espaço afora até se perder no infinito.

Barbosa acordou sobressaltado, l embrando-se de que era o último dia do mês e que o leão, para arrecadar sua parte, deixaria a entrada da caverna livre. Não perdeu tempo e logo estava na entrada da caverna. Dizendo as palavras mágicas que ouvira de Miguelão, teve a passagem livre. Teve o cuidado de fazer a porta fechar e o que viu...

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O QUE SERÁ QUE O BARBOSA VIU? AGUARDEM, NA PRÓXIMA EDIÇÃO, A PARTE FINAL DA HISTÓRIA.