Cantinho do Betão - HISTÓRIAS DO BETÃO IV

Por Roberto Maciel (Betão)

No capítulo anterior, Barbosa descobriu o segredo da maracutaia que empobrecia suas terras, graças à dica e a insistência de um misterioso motoqueiro cabeludo, cuja voz povoava seus sonhos. Graças a ele, acabou descobrindo o autor dos rugidos que ecoavam nas noites de final de mês e também a caverna incrustada no sopé de uma grande montanha.

ALI BARBOSA E OS TROCENTOS LADRÕES (final)
Barbosa teve que cerrar os olhos ante a luminosidade que emanava do interior da caverna, contrastando com o lusco-fusco dos primeiros raios de sol. Entrou, tendo o cuidado de dizer as palavras que faziam a porta se fechar. Era um enorme salão repleto de corredores e salas, todas iluminadas por lâmpadas especiais para que a umidade não afetasse o material ali guardado. Refeito do susto, a visão já acostumada com a luz ambiente, Barbosa começou a percorrer as salas e, em cada uma delas, novas surpresas o aguardavam. Várias delas continham cuecas, calcinhas, sutiãs de bojo, todos recheados de notas de cem reais; em outra, os sacos que eram trazidos pelo LEÃO (era a sala do IR que o animal arrecadava todo o final de mês); outra, guardava joias valiosíssimas e obras de arte.

Barbosa suava frio, emputecido por saber que toda aquela fortuna era fruto de seu trabalho árduo, de sua lida diária e noturna. Tudo aquilo sugado por uma cambada de marginais, sempre impunes pelas suas más ações.

Barbosa sentou-se, cabisbaixo, em uma pedra, quando aquela voz em sua consciência, a mesma dos sonhos, murmurou em seus ouvidos: VAI, HOMEM, NÃO DEIXE A PETECA CAIR. MOSTRE SUA CARA, BARBOSA E CONFIE EM MIM. VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO. LEMBRE-SE DOS NÚMEROS DE TELEFONE QUE EU LHE DEI.

Barbosa reanimou-se e seguiu em frente, percorrendo os outros salões; Num deles, havia um aviso na entrada: PROPRIEDADE DO GEDA. NÃO TENTEM TIRAR NADA. AQUI TEM 51 MILHÕES... Barbosa adentrou-se e viu aquela dinheirama toda, acondicionada em malas, caixas de papelão, pastas 007 e sacolas de supermercados. Uma outra sala chamou-lhe a atenção. Pendurado na porta, um imenso quadro representando uma gigantesca pizza. No interior da sala, uma grande quantidade de diplomas de livramentos de processos, todos carimbados com um carimbo especial: PIZZA. Mais adiante, numa grande área, um apartamento triplex e um sítio e, no último espaço, uma casa de praia, cujo mar era representado por uma gigantesca piscina cheia de euros, dólares, reais, moedas e joias.

A boquiabertice de Barbosa foi interrompida pelo tonitroante rugido do leão que acabava de chegar de sua coleta. Correu para a porta da caverna e, antes que o leão se aproximasse, tentou abri-la mas, Oh!... esquecera a palavra mágica. Desesperou-se, descabelou-se e quase mijou nas calças, quando ouviu o ruído do tropel de cavalos. Eram os trocentos ladrões, chefiados por MIGUELÂO, O TEMERRÍVEL. O som de foguetes espoucando parecia anunciar alguma comemoração.

Quando a porta da caverna ia se abrindo, Barbosa procurou camuflar-se o mais que podia, atrás de uma coluna. A comitiva começou a entrar, tendo, na frente, uma imensa faixa onde se lia: PARABÉNS, AEÇÃO NEVASCA, POR CONSEGUIR SUA LIBERDADE. Logo atrás, o homenageado, ao lado de Miguelão, erguia um diploma emoldurado, tendo no final, aquele famoso carimbo: PIZZA. A comitiva vinha engrossada por advogados que vinham participar da festança.

De seu posto camuflado, Barbosa podia captar algum diálogo entre os entrantes:
- Vai urrar festança o dia inteiro em homenagem à liberdade do parceiro NEVASCA.
- Ele disse que aqueles dois milhões que traz na mochila vai ser sua contribuição para a piscina...
Falando em piscina, o Geda bem que devia tirar pelo menos um dos milhõezinhos dos 51, para completar o volume...
- Ele alega que, por conta da chuvarada, está guardando a grana para a construção de uma arca, caso haja mais um dilúvio...
- Hoje, não quero nem saber. Vou dormir no triplex do MULA...
- Eu vou caçar em seu sítio.
- Diz ele que vai descolar mais um AP, do qual ele está apresentando uns recibos falsos de aluguel prá enganar a torcida...
- Putaquepariu, o homem é mais sabonete que o MIGUELÂO...

Aproveitando a deixa e a distração da comitiva e, percebendo que o LEÃO tinha ido ao mato para "chamar o barroso", Barbosa conseguiu escapulir, metendo o pé na estrada. A certa altura teve que esconder-se para dar passagem a um enorme caminhão de entregas onde se lia nas laterais: PIZZARIA DO CONGRESSO. Eram os comes e bebes esperados pela curriola.

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Barbosa, já em casa, andava de um lado para outro, remoendo seus pensamentos e, ansioso como era, bolava um jeito de acabar com essa bandalheira toda nesse mesmo dia, aproveitando que o pessoal estava enchendo o rabo de pizza. Descobriu os números que o misterioso motoqueiro cabeludo lhe passara e digitou um deles. Ouviu uma gravação que dizia: Matador profissional de bichos. Já matei um leão, uma serpente-dragão de 3 cabeças, sequestrei o famoso cão do inferno e até matei uma corsa de patas de bronze e chifres de ouro, além de limpar uma imensa cavalariça a pedido de um Rei. Encaro qualquer desafio e a qualquer hora. Se for prá detonar com gente, levo meu parceiro que, com sua "queixada de burro", dizima qualquer exército. Em caso de urgência, acesse o aplicativo tal, que imediatamente estaremos à sua disposição.

Em pouco tempo, no local combinado, o UBER deixou dois estranhos passageiros. Ambos eram fortíssimos, musculosos, pareciam até instrutores de academia. A diferença é que, um deles, o de cabelos mais curtos, tinha na cabeça, uma tiara e não usava armas. O outro, cabelos ondulados que desciam até à cintura, trazia à tiracolo uma "queixada de burro".
- Deixa comigo, falou o fortão desarmado - o bicho é meu.
- Não vai matar, pois aqui as leis são rígidas para quem mata um animal.
- Deixa comigo. Só vou dar um "sossega-leão" nele e depois o levo para o lugar de onde ele veio.
Com o leão amarrado e amordaçado, o grandão chegou ao parceiro, bateu em sua mão e disse: - Agora é com você, brother.

Dizendo a palavra mágica, Barbosa abriu a porta da caverna, penetrando com o cabeludão que já tinha empunhado sua arma. O alvoroço foi geral. Eram dentaduras, perucas, gravatas e sapatos voando por todo lado, só sobrando, no final, o grande e poderoso MIGUELÃO, o TEMERRÍVEL.

- Deixa o homem comigo - disse Barbosa - Quero fazer uns carinhos nele.

Vendo-se acuado e sem seus puxa-sacos, MIGUELÃO teve um acesso de xilique e, como último recurso, ofereceu uma gorda propina a BARBOSA.

O motoqueiro cabeludo, agora acompanhado por um parceiro, também motorizado, que haviam sido chamados pelo grandão, analisavam os derrotados. - Não vou levar nenhum deles - Disse o motoqueiro cabeludo - pois em minha casa não há lugar para corruptos. Pode ficar com todos eles. - Negativo - disse o outro (um cara esquisito, todo vermelho, tendo na cabeça um capacete com chifres e na bunda, um rabo com ponta de flexa. - Minha casa já está cheia de ladrões e bandidos, mas estes são os piores e não quero ninguém corrompendo meu eleitorado. É melhor deixar eles aqui mesmo, sob a custódia do Barbosa que saberá dar um jeito na situação.

Barbosa não titubeou, colocando em ação o plano que havia elaborado. Pegou toda aquela fortuna, subiu no alto da montanha, atirando-a ao sabor do vento, que tratou de esparramá-la por todos os cantos de sua terra sofrida. Depois, dando uma enxada para cada um dos trocentos ladrões, inclusive ao grande chefe, MIGUELÃO, o TEMERRÍVEL, disse: - Vamos lá, galera, façam o que nunca fizeram na vida, ponham esta terra para produzir, para compensar o estrago que vocês fizeram.

Hoje, no "Céu risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece". "Teus risonhos, lindos campos tem mais flores" e "Nossos bosques têm mais vida", e Barbosa se acha "Deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo".