Cantinho do Betão - SERÕES DE SEO NHONHÔ VI

Por Roberto Maciel (Betão)

A dentadura alva repousava no fundo do copo de cachaça enquanto o cheirinho gostoso de carne soleada girava na churrasqueira de Mestre Carniça, em homenagem aos 61 anos de Seo Valmir, o dono do Boteco mais frequentado do pedaço. Casa lotada, chamamé ao vivo, casais levantando pó fino do chão de tábuas empoeirado pela ventania do entardecer.

Eu e o PROFESSOR notamos um que de tristeza no semblante de SEO NHONHÔ. A gargalhada, embora forçada, pouco deixava ver aquela gengivada vermelha, como nas noites anteriores. Perguntei pela ZEFA e ele respondeu que ela estava se embonecando para irem, mais tarde, dançar um baile num vilarejo dos arredores.

Eu e o PROFESSOR já havíamos armado um esquema para desvendar os estranhos sumiços de nosso contador de causos. O jipão do mestre estava estacionado num ponto estratégico, de modo que, quando percebêssemos sua saída de fininho, iríamos em seu encalço, pois eu já sabia o caminho para sua casa.

Vendo que a fiel plateia já estava formada em volta, SEO NHONHÔ tirou a perereca do copo, dando nela uma sacudida antes de encaixá-la na gengivada. A tigelada de carne soleada acabava de chegar à mesa, juntamente com dois litrões de cerveja bem geladinha.

UMA TRISTE HISTÓRIA
Esta foi meu Vô qui contô, qui o Vô dele tinha contado prele. Tinha um fazenderão muito rico, criadô de boi i prantadô di cana, i no fazendão tinha muito iscravo qui era usado no canaviar, prá mode fazê a coieta i puxá os pau das moenda prá mode fazê a garapa qui dispos ia virá melado i rapadura nas mão das muié. Tinha tamém um nigrinho duns dizissete-dizoito ano qui era o xodó da Sinhá i da Sinhazinha. Vivia sempri dentro da casa, fazeno us sirviço i ajudano na cuzinha, i quano era di noiti, dispos do jantá, divirtia a famia contano história di saci, di lubisome i currupira. Tinha uns denti bunito di branco, i sempri amostrava eles quano dava gargalhada, quano a Sinhazinha si assustava cum seus causo. Na hora di cumê, cumia a cumida fazida pelos iscravo. Aquelas miudeza qui os rico num cumia...

Um dia, quano istava ajudano na cuzinha, viu, no forno, quase já assano, uma carnona bunita i cherosa. Num risistiu i apruveitano qui as cuzinhera tavam lavano as panela, tirô um pedaço i cumeu. Nessa hora entrô u capataz qui viu tudo i comu já tinha uma ciumera danada du nigrinho, contô tudo pro Patrão, inventano mais história du pobri coitado, dizeno qui ele tava di olho grande na Sinhazinha i otras bobagera. U Patrão, qui istava di mau humô pruque os negócio num tava ino muito bem, mandô u capataz arrancá tudo os seus denti i lanhá o lombo du guri na chibata i dispos abandoná eli no mato, bem longi da fazenda. Dispos desse dia, nunca ninguém sobe mais do negro. Uns dizem qui morreu, outros, qui virô sombração i qui anda di lugá in lugá, contano história.

.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

Quando SEO NHONHÔ deu aquela velha desculpa de ir ao banheiro, eu e o PROFESSOR corremos para o jipão, à espera que ele saísse. Naquele instante a chuva começou e, antes de chegar à carroça a água molhou sua camisa branca, fazendo-a grudar em suas costas. À luz da varanda, pudemos divisar em suas costas, longas cicratizes.

SEO NHONHÔ sumiu na escuridão, na primeira curva da estrada. Na manhã seguinte, eu e o PROFESSOR continuamos nossas buscas. Tínhamos que desvendar o mistério e como eu já sabia o caminho, rumamos em direção ao rancho de SEO NHONHÔ. O que era o belo rancho que eu visitara, não passava de escombros carcomidos pelo tempo e pelos cupins. Num dos cantos, quase oculta pela terra, uma velha frobé enferrujada.

Encucados com o mistério, pegamos o caminho de volta e, em uma das curvas, minha barriga deu sinal e só tive tempo de amoitar-me atrás de uma frondosa árvore para chamar o barroso. Soprava uma leve brisa amenizando o calor e foi então que ouvi um som que contrastava com os piados das aves. Agucei meus ouvidos e percebi que aquele tic-tac... vinha de um dos galhos. Olhei para cima e pude ver, num dos galhos mais altos, quase escondido pela folhagem, um relógio de ouro, automático, que trabalhava com o balanço do vento.

.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

OBS. QUEM LEU COM ATENÇÃO O SEGUNDO ARTIGO DA SÉRIE, PUBLICADO EM: 22/07/17, VAI ENTENDER BEM ESTE FINAL.