Nos Trilhos da Vida - UM HOMEM SIMPLES

Por Dílson Fonseca

Um amigo ferroviário que impôs uma condição para conversar conosco que não fosse identificado pois ele sente muita tristeza na vida que ele leva hoje e na verdade mesmo ele sente vergonha de estar passando por essa situação. Vamos chamá-lo aleatoriamente de José dos Trilhos, e o nosso amigo não conseguiu se aposentar, pois foi sumariamente dispensado pelo Governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso no período da privatização e já tinha mais de 45 anos e não conseguiu entrar em outra empresa. E ficou na ferrovia por 10 anos, trabalhando na via permanente, ou seja, arrumando trilhos e trocando dormentes. Além de sair já debilitado pois a sua função exigia muito esforço físico. O João naquela época com 4 filhos pequenos e uma esposa para sustentar e sem casa própria. Então restou para ele buscar outras alternativas de sobrevivência, começou fazendo changa na área próxima ao pole esportivo na Avenida Porto Carreiro e lá para ele rendia alguns recursos para comprar a sua alimentação e dos seus filhos diariamente. Também é importante ressaltar que naquela época estava em expansão a exportação de produtos brasileiros para a Bolívia e ainda tinha como trabalhare sobreviver carregando caminhões. Mas a sua luta estava cada vez mais árdua e difícil e as changas não estavam mais dando resultado e o pior que a idade cada vez avançando mais. Então nesse momento de extrema dificuldade o nosso ferroviário José dos Trilhos revolver buscar na cachaça uma alternativa pra viver, ou pra morrer. Se tornou um viciado na bebida, esse homem que na época quando tinha o seu emprego na ferrovia adorava andar todo alinhado, odiava a bebida alcoólica e dava para sua família uma vida digna. Após se perder na bebida João perdeu a esposa que preferiu ir embora para Aquidauana para a casa dos seus pais e levar os filhos juntos. Então nosso amigo ex-ferroviário que já morava em condições deploráveis piorou ainda mais, sem dinheiro para pagar aluguel passou a viver de favores nos arredores da vida. Não posso dizer onde o nosso amigo mora, pois ele não quer ser encontrado. Jose dos Trilhos lembrou dos tempos de ferroviário e disse que também existia naquela época pessoas que se por ter um cargo melhor se achava superior em relação aos outros e veio a privatização e tudo acabou, não poupou ninguém. José se lembra de um fato que ocorreu na estação de Corumbá, onde ele após uma semana de trabalho no trecho da ferrovia no Pantanal, chegou na estação e presenciou uma das cenas que jamais saíram da sua mente, viu um filho de um amigo cair do trem, logo na chegada e infelizmente o rapaz veio a óbito. E isso ficou na mente do José por muitos e muitos anos. Nos trechos da vida o nosso amigo José dos Trilhos lembrou do amigo Ladário, que era muito mais do que um cozinheiro era um "artista" que inventava muitas comidas diferentes para os ferroviários e ele jamais esquece do amigo Ladário.José dos Trilhos hoje vive pensando de como ele teve tudo e hoje não tem nada e culpa o presidente Fernando Henrique Cardoso, chega até chorar de raiva do antigo presidente que para ele representou a sua ruína. E diz "graças a esse homem, perdi meu emprego, minha família e minha vida". José para sobreviver hoje em dia vive catando latinha pelas ruas de Corumbá e Ladário e o que consegue vender ele divide um pouco para a comida e outro pouco para a bebida. José nunca mais se casou ele vive só e como ele mesmo diz pelo menos "eu estou sofrendo sozinho". Nunca mais ele teve notícias da sua ex-esposa e filhos, nunca mais. Resta ao nosso ferroviário à saudade e mesmo com uma idade elevada ele ainda quer um dia voltar a andar de trem. Bem o José do trilhos nos falou de algumas fases da sua vida após a demissão fruto da privatização da Rede Ferroviária Federal, do governo Fernando Henrique Cardoso.

O nosso amigo o José dos trilhos disse que dormiu muitas noites na chamada estação velha, pois sem dinheiro, sem emprego, sem esposa, o único espaço que ele encontrou para se abrigar foi a estação velha, onde passou algumas noites no relento e esperando muitas vezes por algo que jamais verá, seu emprego. O José dos Trilhos também enquanto dormia na estação velha ele sonhava que estava no trecho trabalhando, que no dia 30 iria receber o seu salário, que no mês de outubro iria receber o trem de brinquedos e assim poderia dar presentes aos seus filhos. E quando acordava na estação velha imunda e nada tinha e que tudo aquilo não passou de um sonho, um sonho que na vida real virou pesadelo. Vamos usar a própria fala do José dos Trilhos: "amigo Dilson, conheci muito seu pai, seu irmão e você e sei que são pessoas honradas e com certeza nunca roubarem, por isso amigo eu não quero me identificar, mas não vou negar pra você que está aqui sentado no meu sofá na minha humilde casa, amigo pra comer eu roubei graças a Deus não matei, mas roubei. Roubei muito naquela feirinha velha atrás do cemitério, roubei muito no antigo mercado popular, roubei na vendinha do senhor José lá no Cristo Redentor. Mas só fiz isso primeiro para comer e depois pra sustentar o meu vício da cachaça. Mas nunca cheirei e nem fumei maconha". A nossa entrevista chegou a um momento muito triste, pois o nosso amigo lembrou da sua família, lembrou que já teve uma família e que já te chamaram de pai e que hoje não tem mais nada disso, que tristeza, e complementa: "(...) como pode um homem poderoso destruir a vida de muitas pessoas como fez o Presidente Fernando Henrique Cardoso, eu quero que um dia ele sinta na pele o que é ser desempregado e depender dos outros pra viver, ó Deus como eu queria, mas sei que pra gente poderosa nada acontece". Nesse momento o nosso ferroviário chora e demora muito pra parar eu também me senti muito emocionado com isso. O José dos Trilhos mais uma vez me surpreendeu e disse que já tentou por duas vezes tirar a sua vida, a primeira foi quando recebeu o telegrama com a sua demissão e a segunda foi quando ele perdeu a esposa e filhos. Pois eles foram embora para Aquidauana e nunca mais voltaram. "(...)é triste meu amigo viver sozinho e sem nada". Estamos presenciando a morte premeditada de um ser humano que já teve de tudo e que hoje não tem mais nada, mas que está consciente da sua vida e que ainda consegue sobreviver vendendo latinha e material reciclável. Mas mesmo nessa vida tão pobre que o nosso amigo leva ele não quer ser identificado e nem quer ser ajudado, pois na concepção dele ser ajudado por governos ou outras coisas é uma decadência e ele não quer mais essa mancha na sua vida. Ele ainda diz eu posso sobreviver ainda, "(...)vendo as minhas latinhas por 0,05 centavos cada e assim compro meu arroz, meu feijão e quando dá uma misturinha. Hoje mesmo eu vou ter no almoço arroz, feijão e pé de galinha que ganhei de um vizinho". E assim vive o nosso amigo e que fica na esperança de dias melhores, pois eu particularmente conheci o senhor José dos Trilhos na época de ferroviário e o reencontrei hoje em dia. Pois ele trabalhou no mesmo setor do meu pai o já falecido Delso Lourenço da Fonseca, e hoje em dia que o vê jamais irá acreditar de como ele se encontra. E assim é o nosso nos Trilhos da Vida, onde a nossa opção é falar dos verdadeiros ferroviários.