Cantinho do Betão - HISTÓRIAS DO BETÃO VI

Por Roberto Maciel (Betão)

Prá desviar do assunto politicalha, vou variar minhas histórias, tentando alguns contos.

CULPA DO "ZAP-ZAP"
O esmeril soltava faíscas cada vez que os trinta centímetros de lâmina relavam em sua pedra porosa, lançando no ar aquele som estridente que só um afiador gabaritado poderia suportar.

Arlindo Moreira, já quase setentão, ainda bom de batente, tanto em pé como deitado com as quengas, sentia-se solitário (nunca tivera parceira fixa pois não era chegado a compromissos), preferia levar sua vida de boa aposentadoria (velhos tempos), torrando seu rico salário em botecos, bom rango, a maioria das comilanças tiradas de seu sitiozinho de cinco hectares.

Arlindo Moreira cultivava aquela barba há muito tempo, charme que usava para conquistar o mulherio. Barbeiro nenhum colocara as mãos nela. Ele próprio a aparava regularmente e a Dolores, a mulata fogosa que contratara para os serviços domésticos, além de deixar a casa brilhando, almoço e jantar na hora certa e as roupas sempre limpinhas e engomadas, ainda dava um trato nos pelos faciais e pubianos do Moreira, lavando-os e perfumando-os com finos champus (caraca, tô por dentro da nova ortografia!) todos os finais de semana e nessas ocasiões rolava sempre um clima sem compromisso.

Arlindo Moreira passou o polegar no fio da lâmina que refletia os últimos raios do sol que se punha atrás do arvoredo. Ainda não estava no ponto em que queria para fazer o serviço. Colocou o esmeril para funcionar e as fagulhas tornaram-se mais visíveis no lusco-fusco da tarde que caía.

Enquanto trabalhava, aquela voz martelava em sua cabeça: "Você tem que se livrar dela. Tem que tirá-la de sua vida, do contrário não irei morar com você. Não suportaria ter que dividi-lo com ela".

Arlindo Moreira virou o fio da faca e o esmeril continuou trabalhando. Aquela era a exigência dela, a mulher que conhecera pela internet e com a qual trocava juras e selfies no zap-zap, inclusive de Dolores em seus afazeres, há muitos anos cuidando dele e da casa. "Não quero vê-la mais aí. Livre-se dela sem deixar nenhum vestígio, ou nunca mais vai me ver".

Pensou em usar a velha navalha que herdara de seu avô pois assim não teria esse trabalhão todo para afiar a faca.

O celular tocou. Era ela. "Estou chegando em 3 horas. Faça logo o serviço e deixe tudo limpinho, pois não gosto de chão sujo".

Arlindo Moreira ainda estava com a faca afiadésima na mão, quando ela chegou. "Eu não disse para você se livrar dessa barba ridícula, seu imbecil. Eu a odeio. Onde está a Dolores para pegar minhas malas"?

Naquela noite, Arlindo Moreira teve trabalho duplo para enterrar dois corpos num local ermo do sítio.

.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

A história a seguir não é propriamente um conto, mas sim, uma ficção que podia ser enquadrada como um causo de boteco feito a várias mãos. É a história de um pé de manga que acabou quase virando submarino e o astro principal é um antigo conhecido nosso, de vários "CAUSOS DE BOTECO": o Tonhão.

A CANOA DO TONHÃO
O nosso amigo Tonhão, hoje aposentado, teve a grande surpresa de ter a ex mulher de volta ao lar. Todo eufórico com a boa nova, resolveu dar um jeito na casa (ganhou do REI, um colchão de casal), começando pelo quintal.

Desgalhou completamente o enorme pé de mangarita, deixando só o tronco, que o LITRÃO iria cortar com a serra. Nessa ansiedade de espera, Tonhão acabou tirando uma carteirinha de pescador, coisa que fazia questão de mostrar a todos no boteco. Foi então que eu e o GEVA começamos a bolar a história da canoa. Assim que LITRÃO cortasse o tronco da mangueira, TONHÃO pediria ao XARÁ para que este, com suas habilidades carpinteirísticas (já havia feito até caixão de defunto), construísse uma canoa.

Tonhão, sem saber da história, continuava exibindo sua carteirinha de pescador, até que alguém perguntou onde ele iria pescar, e quando sugeriram a Lagoa Itatiaia, no bairro Tiradentes, ele ficou emputecido, dizendo que não tirara carteirinha de pescador profissional para pescar lambarizinhos. Iria para o rio Aquidauana, catar pacus e pintados.

Os problemas começaram a surgir. Como o Tonhão, com 65 anos de idade, iria movimentar aquela puta canoona pesada, só no remo? Foi então que o GEVA sugeriu que se adaptasse na bunda da canoa o motor do fusca, só que o Tonhão já havia vendido o alternador e, sem ele o motor não funciona. Lembramos, então que o Toninho Carniça tinha um carro velho e que, talvez emprestasse o alternador. Carniça pulou alto quando fizemos o pedido, dizendo que a canoa de tronco de mangueira era muito pesada e que iria afundar, ainda mais, com o peso do motor. - Não vou emprestar pomba nenhuma.

Quando me contaram a história de que a canoa iria afundar, logo sugeri para que fosse adaptado ao seu redor, garrafas pet: as da proa, seriam corotes de Vô Kiko, as laterais, os litrões de cachaça e as da proa, para aguentarem o peso do motor, garrafas de refrigerante de 3 litros. GEVA sugeriu que enchêssemos essas garrafas com gás hélio, para reforçar a flutuação. O Xará disse que já tinha várias dessas garrafas e ficaria encarregado de arrumar o gás com o Paulo dos balões. A canoa foi promovida a barco. Com mais adaptações, tais como usar o teto do fusca para capota e o capô para proteger o motor, só faltava a garrafa de champanhe para ser quebrada no casco no dia do lançamento a ser realizado no Lago do Amor, mas Tonhão esfriou a chama, dizendo que o Litrão não fora cortar a árvore e esta brotou novamente, fazendo com que a canoa que virou barco e que, mais tarde iria virar submarino para ajudar a resgatar o submarino argentino que sumiu, acabou ficando só no papel.