Cantinho do Betão - POR ÁGUA ABAIXO

Por Roberto Maciel (Betão)

A cabeça do palito roçou a lixa da caixinha produzindo o lume que tremulou, quase se apagando à corrente de ar frio que entrava pela fresta da janela. Com a outra mão em concha, a chama parou sua dança frenética e foi conduzida até a ponta do cigarro barato e a aspiração produziu a brasa que queimou, produzindo fumaça, que foi lançada no espaço pela expiração do homem, seguida de um forte acesso de tosse quase asmática.

Um trovão ribombou e o clarão do relâmpago mostrou o aguaceiro que caía, alagando a terra seca pela estiagem prolongada. Água que o solo bebeu sofregamente, fartando-se, vomitando o excesso numa enxurrada que arrastava os verdes da pequena horta regada diariamente pela mangueira ligada à torneira do tanque de lavar roupa.

Atirou a bituca pela janela e o toco do cigarro soltou um chiado ao cair na água, sendo logo arrastado, como um frágil barquinho à deriva, pela enxurrada que, aos poucos, ia engrossando as águas do córrego que passava lá por perto, fazendo-o transbordar, inundando o terreiro.

Pegou o copo de cachaça, sorveu o líquido em um só gole, atirando o vasilhame que se partiu em mil pedaços ao encontrar a parede pela frente. A faca ensanguentada repousava sobre a pia da cozinha e no terreiro inundado, o corpo pendurado no varal derramava as últimas gotas de sangue que se diluíam no aguaceiro. Sob a jaqueira frondosa, a cova recém cavada já estava cheia de água.

Acendeu outro cigarro (havia prometido parar com o vício do tabagismo mas, o acontecido fê-lo mudar de ideia) e tragou a fumaça, expelindo-a em sopros intercalados, fazendo-a formar argolas que subiam na atmosfera num balé circense (pombas Betão, agora você apelou mesmo). Já que havia quebrado o copo, passou a beber no gargalo da garrafa, tentando manter a calma pois sentia que já estava à beira de entrar em erupção, moda vulcão adormecido.

Depois de todo o trabalho que tivera para preparar a churrascada prometida a um candidato à reeleição e seus assessores, em troca de favor político, vira tudo ir por água abaixo...
MORAL DA HISTÓRIA: Não puxe saco de político pois a natureza pode se voltar contra você.

ALFREDO
Alfredo era um belo gavião real criado em cativeiro, desde filhotinho. Quase desplumado, fora resgatado de caçadores de aves raras para serem exportadas.

Macho de belo porte, plumagem brilhante, bico e garras fortes, Alfredo, com sua cabeça adornada por um belo penacho, era a ave mais linda e paparicada do aviário.

Privilegiado, Alfredo vivia em ambiente bem maior, o que lhe permitia exercitar seu metro de envergadura em asas poderosas e para alimento, caçava pequenos mamíferos que colocavam em seu cativeiro. Recebeu um treinador, a quem se afeiçoou, deixando-o voar ao ar livre, pousar em árvores, mas sempre ensinado a retornar ao som do apito especial, pois o dispositivo preso em uma de suas pernas dáva-lhe pequenos choques, obrigando-o a retornar sob a pena de ficar sem alimento.

De sua gaiola dourada, Alfredo, o solitário, invejava as aves que voavam livres ao lado de suas parceiras e sonhava em algum dia ter o privilégio de constituir um lar ao lado de uma fêmea de sua espécie. Sonhava em voar livre pelos ares, sem aquele dispositivo em sua perna, só retirado quando voltava ao abrigo.

Por falta de recursos governamentais, o aviário teve que ser fechado e as aves, algumas foram soltas na natureza e as mais carentes, adotadas.

Alfredo, ave de valor inestimável, foi vendido para um fazendeiro milionário que o confinou num poleiro com uma corrente atada em um de seus pés. Perdera totalmente a pouca liberdade que tivera no abrigo, recebendo ração como alimento e sendo alvo de ostentação aos amigos do fazendeiro.

Nesse novo cativeiro, Alfredo envelheceu. Suas asas, por falta de exercício foram perdendo o viço mas, sua vontade ferrenha de liberdade nunca se esgotara, ainda mais, em pleno contato mais que direto com a natureza, vendo a vida livre purular ao seu redor. Sua ansiedade era tanta que, discretamente, com o forte bico, tentava enfraquecer a tornozeleira que o privava da liberdade, até que um dia conseguiu seu intento,

Livre do grilhão que o prendia, Alfredo esticou as asas dormentes e, movimentando-as como num aquecimento, alçou voo a uma árvore próxima.

Na fazenda, aquele silêncio pois o fazendeiro saíra com os amigos para mais uma caçada pela floresta. Aproveitando a oportunidade, Alfredo exercitou mais as asas e pegou o espaço, sentindo no corpo, todo o sabor da liberdade. Deu rodopios pelo ar, razantes pelo arvoredo e seus olhos rapinantes logo visualizavam uma presa. Pousava nalguma árvore e, após se saciar, retomava o voo, até que, de repente sentiu uma agulhada no peito e um chumaço de penas ficou flutuando pelo espaço enquanto ele entrava em parafuso, vendo seus poucos momentos de liberdade rodando... rodando... rodando...