Cantinho do Betão - BRINCADEIRAS DE INFÂNCIA II

Por Roberto Maciel (Betão)

Voltando às nossas brincadeiras da época da infância que nos deixaram tantas saudades...

Época das figurinhas. Álbuns com cada página completa valendo prêmios (eu cheguei a ganhar uma bola de futebol, bonita, couro puro e na primeira pelada lá em casa, foi grudar na bocaiuveira do vizinho).

As primeiras figurinhas vinham embrulhadas em caramelos (deve ter muita gente da época que está com a glicose a mil). As que eram repetidas, nós trocávamos na porta das revendedoras e as que sobravam, usávamos para várias brincadeiras.

Em cada página do álbum havia, pelo menos, duas figurinhas carimbadas e uma assinada, as mais difíceis e que eram vendidas a bom preço.

BATE-VIRA
A brincadeira mais comum e inocente era o "bate-vira", disputado entre dois antagonistas. Também conhecida por "bafo", consistia, em cada um dos adversários colocar uma ou mais figurinhas, umas sobre as outras e, com a palma da mão, batendo sobre elas, tentava-se virá-las.

Além do "bate-vira", as figurinhas comuns eram disputadas no "barata-voa", já descrito no artigo anterior. As figurinhas mais difíceis, as carimbadas, eram disputadas em uma versão mais violenta do tradicional "barata-voa", disputado, principalmente, pela rapaziada mais velha, a famosa:

BARATA-VOA A MURRO
A galera ficava em círculo e alguém jogava a figurinha no meio da roda. O corajoso que se arriscava a pegá-la tinha que correr até um lugar demarcado e a turma atrás, socando porrada em suas costas, até que o cara largasse a prenda. Caso isso acontecesse, quem pegava a figurinha do desistente teria que correr até o ponto delimitado, levando porrada nas costas.

Quando alguém conseguia completar a página premiada, ia correndo para a casa revendedora e havia até foguetório e fotos para o ganhante. O prêmio mais cobiçado era a bicicleta, que vinha na página do meio do álbum..

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Quase não havia gordinhos em nossa época, pois queimávamos nossas calorias em brincadeiras de corre-corre.

BARRA-MANTEIGA
A galera ficava em linha, as mãos esticadas e o batedor, falando o Jargão: "barra manteiga, na fuça da nega, mamãe mandou bater neste daqui", ia batendo na mão dos outros (alguns batiam tão duro que a mão da gente aé avermelhava), cada mão, uma palavra, só dividindo o da-qui. O que levava o "qui" saía correndo, até agarrar o batedor e tomava o seu lugar. A turma dos "porrados" já ficava preparada para correr atrás do batedor pois o "qui" podia ser para qualquer um fora da sequência do jargão..

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Enquanto as meninas atiçavam seu instinto maternal com as brincadeiras de boneca e de casinha, a gurizada jogava bolita nas mais variadas formas de disputa: corrida, três ocos, triângulo, paredão, etc.

Havia vários tipos de bolitas, desde as mais comuns que o pessoal perdia nas disputas, até as de coleção, como as bolitas-de-leite, pequenas, brancas e com traços coloridos. Geralmente, a bolita mais cascarenta era a famosa "jogadeira", bem maior que as outras. Algumas eram tão fortes que chegavam a quebrar as do adversário.

Nas tardes de domingo, quando não havia uma bola para jogarmos uma pelada, arrancando a tampa do dedão nalgum toco ou pedra, bolávamos umas brincadeiras diferentes e um pouco violentas, tais como:

GUERRA DE MAMONA
As mamonas eram muito comuns nos quintais e seus frutos espinhudos e verdes nos fornecia munições. As duas equipes antagônicas, com suas fundas (estilingues) municiados, escondiam-se pelo mato e a guerra começava. Uma estilingada de mamona bem acertada, doía pra cacete, chegando a cegar quando acertava um olho.

GUERRA DE CARRAPICHO
A natureza era farta de materiais bélicos para nossas brincadeiras e uma dessas plantas era o carrapicho, que dava uns cachos com sementes espinhudas que grudavam na roupa. Não havia uma organização nesse jogo. Qualquer um que conseguisse um cacho, atiráva-o no lombo do primeiro que encontrasse pela frente. Não havia aliados. Todos eram inimigos e tratavam de se proteger das carrapichadas.

MALHAR JUDAS
Muito comum aí em Corumbá, no sábado de Aleluia, era a malhação do Judas. Na sexta-feira a gente já fazia um bonecão com roupas velhas, cheia de capim e já deixávamos preparados os cabos de vassoura. No dia seguinte, logo cedo, reuníamos no local de encontro, amarrávamos o Judas na garupa de uma bicicleta e partíamos, arrastando o bonecão pelas ruas, que, na época, não eram asfaltadas e, no meio do poeirão, usando o Jargão: "Aleluia, Aleluia, peixe no prato e farinha na cuia", corríamos atrás do boneco, bordoando-o com os cabos de vassoura. Como começava a juntar mais gente, às vezes alguém levava, por engano, uma bordoada no lombo. No final, os restos mortais do Judas eram queimados.