Cantinho do Betão - BRINCADEIRAS DE INFÂNCIA III

Por Roberto Maciel (Betão)

Incrível como era a imaginação da gente para inventar brincadeiras para matar o tempo pois, na época, não havia televisão nem celular. Havia mais entrosamento entre a gurizada quando, em noites de tempestade, reuníamos para contar causos de assombração.

BRINCADEIRAS DE RODA
A partir dessas brincadeiras é que a libido começava a despertar nas inocentes cabecinhas infantis, já quase adolescendo. Os primeiros mão-a-mão, os primeiros abraços e os primeiros interesses no sexo oposto.

Os meninos começaram a participar das cirandas só para pegarem nas mãos das menininhas. Cada brincadeira tinha sua própria canção e coreografia. Algumas, tinham até castigo.

BONEQUINHA
Roda formada e uma das meninas entrava no meio, coreografando a canção entoada pelos demais que rodavam em volta.
Uma bonequinha na roda entrou
Uma bonequinha na roda entrou
Deixai-a rodar que ainda não rodou
Deixai-a rodar que ainda não rodou
Rodai, rodai, rodai bonequinha
Rodai, rodai, rodai bonequinha
Se não quer ficar na roda sozinha
Se não quer ficar na roda sozinha
- Aí a bonequinha respondia:
Na roda sozinha eu não vou ficar
Na roda sozinha eu não vou ficar
Pois tenho "fulano" para ser meu par
Pois tenho "fulano" para ser meu par.

Então a "bonequinha" corria e abraçava alguém da roda e, se o abraçado fosse um menino, era a maior festa.

Enquanto as brincadeirinhas de boneca amadureciam as meninas mais cedo, as brincadeirinhas tipicamente masculinas embruteciam mais os garotos, tanto é que quando um garoto participava de uma das brincadeirinhas de roda, logo era taxado de "mariquinha" mas, depois que ele explicava a situação, os outros resolviam aderir ao grupo para inocentemente, tirarem uma casquinha.

Outra brincadeira de roda que gostávamos de participar era a de:

"ABENÇA" VOVÓ
Galera rodando (sempre em número ímpar, coreografava a canção:
Samba, criola, que vem lá da baía
Pega essa criança e joga na bacia
A bacia é de ouro, areada com sabão
Depois de areada, enxugada com roupão
O roupão é de seda, camisinha de filó
E quem ficar por último, fica de "abença" vovó.

Aí cada um procurava um parceiro para abraçar e o que sobrava era saudado pelo coro: "abença vovó, abença vovó" e, como castigo, tinha que declamar um versinho, que variava a cada nova rodada, tais como:
Batatinha quando nasce
Esparrama pelo chão
Menininha quando dorme
Põe a mão no coração
.x.x.
Joguei um limão n'água
Atravessou sete baías
Deu no cravo, deu na rosa,
Deu no peito da Maria
.x.x.
Fui andando por um caminho,
Capim verde cortou meu pé
Amarrei com fita verde
Cabelinho de José
.x.x.
Lá em cima daquele morro
Passa boi, passa boiada
Também passa Fulano
Com a cueca remendada
.x.x.
Fui andando por um caminho
Encontrei uma coruja
Pisei no rabo dela
Me xingou de cara suja

Os meninos mais sacanas já gostavam de chistear:
Batatinha quando nasce
Esparrama pelo chão
Menininha quando deita
Pula e peida no colchão
.x.x.
Fui andando por um caminho
Encontrei um jaburú
Olhei pra cara dele
Me mandou tomar café
.x.x.
Lá em cima daquele morro
Tem uma lata de biscoito
Quem quiser falar comigo,
Na boca do meu 38.

Nessa brincadeira de trovinhas, quantos poetas não germinaram...

QUE PAU É ESSE
Mais uma brincadeirinha tipicamente masculina, até meio violenta, em que os participantes formavam uma roda, dando as mãos ou, para maior resistência, segurando-se pelos pulsos. O escolhido, no meio da roda, batia em cada antebraço, perguntando: - Que pau que é este, e cada um dava o nome de uma madeira resistente. Percorrida toda a roda, o do meio analisava a junção de braços que achava mais fraca e partia na direção, tentando forçar a barra e se libertar. Ia tentando em vários pontos até encontrar uma que rompesse em seus encontrões. Livre, partia na carreira tentando escapar da galera que o perseguia e, quem conseguisse pegá-lo, ficava no meio da roda.

Outra brincadeira de roda mista, muito divertida era a da:

GALINHA DO VIZINHO
A galera, em roda, cantava a canção:
A galinha do vizinho
Bota ovo amarelinho
Bota um, bota dois, bota três ... (e ia até dez, acelerando a rodada à medida que o número de ovos ia aumentando. No dez, todos tinham que se agachar e, dependendo da velocidade, ia um caindo pra cima do outro e era gratificante quando caíamos sobre uma menina ou vice-versa.
.x.x.x.

Após os folguedos, cansados e suados, sentávamos no meio-fio e começava o:

PARIR GATO
Sentados na beira da calçada, os que ficavam nos lados opostos, começavam a empurrar os do meio, até que um deles, com a pressão, espirrasse para fora.
.x.x.x.

Se, hoje em dia, um psicólogo observasse essas brincadeiras, poderia traçar o perfil de cada participante.

Mas, tudo bem. O tempo passou, a gente brincou, brigou, bateu, apanhou mas, foi gostoso VIVER NOSSO TEMPO DE CRIANÇA: sem tv, celular, games e outras modernidades. Tivemos a chance de poder correr livres pelas calçadas aproveitando as noites enluaradas.