Saúde

CTI supera fase de desmoralização e hoje dá exemplo de humanização

Fonte: Nelson Urt em 02 de Novembro de 2016

Médico Manoel João adota protocolo universal no comando do CTI de Corumbá.

Navepress

Manoel João da Costa Oliveira, 54 anos, pode encerrar em dezembro um ciclo de sete anos como médico chefe do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da Santa Casa de Corumbá. Vai colocar o cargo à disposição e deixar o novo prefeito à vontade para escolher outro diretor, conforme revela nesta entrevista ao Correio de Corumbá. Corumbaense, filho de um pantaneiro de 85 anos do Taquari, ele se orgulha de ver hoje o CTI de Corumbá ser citado em Campo Grande como "um exemplo a ser seguido por quebrar paradigmas". Lembra que, quando assumiu, o centro "estava desmoralizado" e era chamado de "CT Óbito" por funcionários e até mesmo pelos colegas, que preferiam manter pacientes na enfermaria. Conseguiu montar uma equipe comprometida, implantou o protocolo de atendimento horizontal e humanizado, e hoje colhe bons resultados, embora reconheça a falta de recursos suficientes para atender a "população satélite" que inclui, além de corumbaenses e ladarenses, os bolivianos da fronteira e turistas americanos e europeus. Para ele, vale mais a pena hoje investir no Hospital de Caridade do que construir um novo hospital em Corumbá. Da mesma forma é contra entregar o hospital nas mãos de uma organização social. E considera "arrocho e crime" qualquer tipo de cobrança por fora de pacientes bolivianos atendidos pelo SUS. Seu tempo está dividido entre a medicina e o esporte. Mestre em jiu-jitsu, dono da Academia Iron, Manoel João é seguido pelas três filhos, Ariadne, Célia e Taedes, que dão aulas da arte marcial nos Emirados Árabes, e pelo caçula João Lucas, de 13 anos, que já lutou em Abu Dhabi e agora se prepara para um desafio na Bolívia.

O SUS diferencia o Brasil de outros países
"Uma das coisas que diferencia o Brasil de outros países é o SUS. Vocês vejam a briga que esta nos Estados Unidos para implantar um sistema de saúde como esse, que atenda a população. Atende o povo necessitado, que não tem condições. O CTI é linha final. Qualquer um de nós pode ir pra lá. É uma situação emergencial, antes de chegar ao particular. Por isso o CTI tem de ser muito bem cuidado. Um infarto de miocárdio, um acidente vascular cerebral, qualquer patologia mais grave a pessoa vai parar lá, mesmo que as condições financeiras permitam ir para outro lugar. Considero como a galinha dos ovos de ouro (do sistema de saúde), tem de cuidar bem e investir".

O CTI estava desmoralizado
"Há sete anos, eu resolvi assumir o desafio de cuidar do CTI. Foi opção. Eu como plantonista achava que podia ajudar. Chegamos a um ponto em que o CTI estava desmoralizado. O CTI era chamado de CT Óbito, por todos os que conheciam, por funcionários e até colegas. O cirurgião já não mandava doente para o CTI, dizia: pra morrer lá então é melhor morrer na enfermaria mesmo com a família".

Diarista faz parte de projeto de humanização
"Aceitei como desafio. Através de projeto de implantar protocolos e treinar pessoal, hoje tenho uma equipe no CTI muito bem treinada, uma equipe de enfermagem, de terapeutas ocupacionais, de psicologia. Pra mim é onde superamos a falta de material, a gente supre o que tem em cidade grande. A consultoria ajudou muito. Temos um mural onde você coloca tudo sobre o doente, o limite de dias para acender o sinal vermelho. Além de diretor do CTI sou médico diarista, que passa em visita a todos os doentes. Individualizo cada doente. Sei se está respondendo a um medicamento. O diarista é o clínico do doente, horizontal, faz parte de um projeto de humanização. É uma exigência do Ministério da Saúde. O diarista sabe tudo o que está ocorrendo com o paciente".

Neurocirurgião é inviável: não quer ganhar mal
"A gente começou a implantar protocolos, para infarto agudo de miocárdio, para substancias que são aplicadas em outros centros. Acidente Vasculhar Cerebral tem seu protocolo. Não temos neurocirurgião em Corumbá porque não é viável para ele Quem ganha muito bem não quer ganhar mal, aqui ele não tem o volume de trabalho  que teria em outro centro. Dessa forma, em caso de trauma crânio-encefálico temos de manter o paciente vivo para depois enviar para Campo Grande, evitamos danos cerebrais para depois encaminhar".

Jovem entrou em coma e se recuperou no CTI
"Vou dar exemplo: outro dia chegou um caso de trauma crânio-encefálico. Um jovem que chegou em coma após sofrer acidente de moto. Foi entubado. Sinais de perda de função cerebral importante, mas eu não tinha motivos para mandá-lo imediatamente para Campo Grande. Não tinha hematoma cerebral, sangramento, não era caso cirúrgico. Tomamos toda conduta, vinte dias em ventilação mecânica. Hoje ele está vivo, consciente, orientado, em contato com família e com chances de recuperar movimentos com fisioterapia. Em anos anteriores, era fim de linha (caso de óbito). Hoje, não. Esse é nosso dia a dia, tem muitos casos como esse. E muitos voltam para agradecer. Por exemplo, tem o caso da professora Teresinha Baruki, que foi paciente no CTI e fez questão de relatar a maneira como foi tratada".

Ninguém está no CTI para fazer bico
"Trabalho com hierarquia, em equipe, ninguém está aqui para fazer bico, simplesmente cumprir jornada de trabalho e ir para casa. Quem ficou comigo sabe de sua responsabilidade. Usamos colchão de ar para conforto dos pacientes. Não temos falta de medicamentos. Temos um ventilador mecânico por leito. E ventiladores reservas. Recentemente saiu uma reportagem na TV mostrando leito do CTI sem ventilador em outra cidade. Mas é preciso que a sociedade se envolva com a gente, para fiscalizar, ver, cobrar. As visitas são flexíveis. Os familiares podem visitar o paciente, consultar o médico. Temos psicólogo para preparar a família, aliviar a dor". 

Prédio possui arquitetura que facilita disposição de leitos independentes

Cobrar atendimento por fora pelo SUS é arrocho e crime
"Cobrar qualquer coisa pelo SUS que envolva paciente atendido pelo SUS é ilegal. Ouço falar mas não existe caso comprovado. Não compactuo. Considero o boliviano muito próximo da gente, sempre que fui para lá, são pessoas educadíssimas, tem conhecimento  político muito grande e não merecem que aproveitem um momento de fragilidade deles aqui. Uma coisa é o tratamento pelo médico e consultório particular. Outra coisa é cobrar por ser boliviano quando é encaminhado pelo SUS. Então, isso cabe denúncia, seja médico, seja quem for que faça. Vejo como criminoso qualquer colega que cobre em setor que não pode cobrar. Eu chamo isso de arrochar. 

Mãe revelou caso de falsidade ideológica
"Teve até um caso em Corumbá, no CTI, de uma pessoa (boliviano) que deu nome falso para ser atendida. A pessoa veio a falecer. Quando fui liberar o atestado de óbito a mãe veio, chorando, e disse que o nome não era aquele. Como é que eu chamaria a Polícia Federal para uma mãe que acabava de perder um filho de vinte anos, por uso de nome falso (falsidade ideológica)? A pessoa se sente pressionada, acha que não vai ser atendida por ser boliviana."

Operava bandidos de madrugada
"Quando eu operava de madrugada, eu aprendi uma coisa. A gente operava muito bandido, cara que acabava de assaltar alguém e levou um tiro. E isso começou a mexer com minha cabeça. Mas depois comecei a pensar diferente, vendo que aquele bandido tinha uma mãe, um pai, tinha um filho, e que esse filho, esse pai, essa mãe era igual minha família. Então eu passei a olhar esses pacientes de outra forma, não queria saber qual era o problema dele com a justiça. Cuidava tão somente de fazer o melhor na cirurgia".

Atendimento de estrangeiros gira em 10%
"O SUS é universal. Já operei franceses e ingleses pelo SUS. Operei um australiano (turista) que depois levei para minha casa, ficou vinte dias comigo. Chamava-se Benjamim e ficou em casa, porque os amigos foram embora e ele ficou sozinho. A família me ligava pedindo notícias dele. Não posso negar atendimento. Se eu negar incorro em erro gravíssimos perante a lei. Não precisa ser brasileiro para ser atendido. A Secretaria de Estado tem de levar em consideração essa situação, a população satélite de Corumbá, o Pantanal, os assentamentos, a Bolívia, nada entra nessa contabilidade. Tem de ser revista a verba para o Hospital, para que o atendimento seja prestado. A porcentagem de estrangeiros que a gente atende aqui é muito grande, gira em torno de 10% do total. Tem de ser contabilizado o estrangeiro".

Tem de investir no Hospital de Caridade
"Vamos construir um Hospital Regional em Corumbá? Eu, particularmente, não sei se isso vai acontecer. Enquanto não vem essa maravilha tão falada e propagada em época de eleição, que seja então dada atenção devida ao Hospital de Caridade. Acho que você tem de investir no que está aí. Por exemplo: o governo deu uma tomografia que resolveu muita coisa pra nós, não tínhamos, a gente fazia fora. Paciente do CTI que chega agora em duas horas está com a tomografia pronta - foi o caso do jornalista da TV Morena (Michel Lorãn) que sofreu aneurisma e foi assistido no CTI de Corumbá (antes de seguir para Campo Grande)".

É um erro entregar hospital para Organização Social
"Falam também em entregar (o Hospital de Caridade) para uma organização social, temos diversas na cidade.  Sou contra. O Ministério Público de Goiânia está entrando com ação contra o Hospital de Goiânia, que foi um protótipo de administração por OS (Organização Social. Mostraram fotos de doentes dormindo no mesmo lençol durante três dias, no pós-operatório. Não acredito que isso daria certo aqui. Acredito em investimento no nosso hospital. Quem investe tem de cobrar, por meio do Tribunal de Contas".

Eleição não é Fla-Flu, é processo democrático
"Provavelmente eu esteja entregando a chefia. Já tenho bastante tempo no CTI, de repente é hora de entrar sangue novo. Eu apoiei um lado que não venceu mas não considero a eleição um Fla-Flu. Considero um processo democrático onde um foi vencedor e agora eu torço para que o lado vencedor faça seu melhor governo para o povo, porque também estou envolvido. Minha questão é deixar o cargo à disposição porque é fase de transição, há mudanças, e eu não gostaria de estar ocupando um lugar onde não deveria estar".

Prédio do CTI foi construído há 17 anos com doação da família Bumlai
O Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da Santa Casa de Corumbá, na rua Colombo, completou neste dia 28 de outubro 17 anos. O prédio foi inaugurado em 1999 com o nome de CTI Antonio José Mansur Bumlai, patriarca da família que fez a doação de recursos para sua construção. Foi a esposa do pecuarista José Carlos Bumlai, após ser diagnosticada com leucemia e falecer precocemente, quem determinou em testamento que toda a quantia paga pelo seguro de vida dela fosse revertida em obras para as novas instalações do CTI. O pedido foi atendido com a construção do CTI da Pediatria, prédio ao lado, e do CTI geral, que hoje conta com a chefia do médico cirurgião e clínico geral Manoel João da Costa Oliveira.

Placa de inauguração leva o nome de Antônio José Mansur Bumlai

"Na verdade, a família Bumlai queria criar uma fundação e construir muitas outras obras além do CTI, mas aí surgiu toda aquela pressão política, ciumeira, e o projeto foi deixado de lado, ficou apenas no CTI, uma pena", lembrou o médico pediatra Eder Brambilla, que era o prefeito de Corumbá durante a construção do CTI.

Hoje, por um desses caprichos do destino, José Carlos Bumlai, pecuarista e amigo de Lula, está preso em Curitiba, acusado pelo juiz federal Sérgio Moro de "gestão fraudulenta e corrupção passiva" no processo da Operação Lava Jato. O alvo final, todos sabem, é o ex-presidente Lula, ainda o maior obstáculo diante dos sonhos neoliberais na corrida eleitoral de 2018.

Construído em modelo arquitetônico moderno e bastante adequado ao atendimento médico de emergência, conforme atesta o médico chefe Manoel João, o CTI de Corumbá dispõe de dez leitos independentes, todos equipados com ventilação mecânica. E no prédio há espaço para a instalação de mais oito leitos e outras reformas. Se for mantido à frente do CTI, o médico exigirá melhorias, algumas reformas providenciais. Uma delas seria a troca de vitrais do teto para iluminar naturalmente o ambiente.