Meio Ambiente

Descoberta nova espécie de planta só encontrada no Pantanal

Fonte: Assessoria de Imprensa Embrapa em 25 de Janeiro de 2017

Ana Maria Dantas de Maio

Após 30 anos de sua coleta da natureza, uma nova espécie de planta foi descoberta e catalogada pela ciência. Encontrada somente no Pantanal, a Ipomoea pantanalensis J.R.I.Wood & Urbanetz havia sido depositada na década de 1990 pelo pesquisador da Embrapa Pantanal (MS) Arnildo Pott, atualmente aposentado, que a armazenou no herbário daquele centro de pesquisa. Dois exemplares da espécie nova foram coletados por Pott e foram catalogados como sendo de espécies já conhecidas (Ipomoea subrevoluta e Ipomoea emetica).

O pesquisador John Wood, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, visitou o herbário brasileiro e percebeu que o material armazenado não correspondia às espécies conhecidas. Em 2016, a nova planta, um cipó da família da batata-doce, foi oficialmente reconhecida por meio de publicação no periódico científico Kew Bulletin.

A descoberta foi possível graças à disponibilização on-line dos dados do herbário da Embrapa Pantanal em janeiro de 2013 por iniciativa da curadora Catia Urbanetz. Isso permitiu que pesquisadores de qualquer lugar do mundo tivessem acesso ao seu conteúdo. Consultando a rede Species Link, à qual o herbário está conectado, o botânico inglês encontrou, na coleção brasileira, exemplares que ele pesquisava. Wood visitou a Embrapa Pantanal em janeiro de 2014, o que possibilitou atualizações e correções nas identificações de exemplares da família botânica da qual ele é especialista (Convolvulaceae).

Wood analisou dois exemplares coletados por Pott nos anos 1990, que estavam identificados como Ipomoea subrevoluta e Ipomoea emetica. O cientista britânico verificou que a identificação desses dois materiais estava incorreta e constatou que se tratava de uma espécie nova, pois os caracteres da flor daquelas duas plantas eram diferentes dos caracteres das espécies em que haviam sido originalmente catalogadas.

O nome Ipomoea pantanalensis J.R.I.Wood & Urbanetz, dado à planta recém-descoberta, foi escolhido por se tratar de uma espécie endêmica do Pantanal (que só ocorre nessa região). "Espécies endêmicas são muito raras no Pantanal. É diferente de uma espécie considerada típica de determinada formação, quando ocorre em abundância naquele local, mas também pode ser encontrada em outras áreas", explica a botânica Catia Urbanetz, que descreveu a Ipomoea pantanalensis em parceria com Wood.

A nova espécie é típica do caronal, formação vegetal campestre que ocorre no Pantanal. Tradicionalmente, o caronal é manejado com fogo, já que o capim dessa formação só é consumido pelo gado em sua fase inicial. Esse costume dificulta encontrar a nova espécie no campo. A descoberta, de acordo com a pesquisadora, é mais um importante motivo para que o caronal seja conservado.

As coletas ocorreram na fazenda Nhumirim, campo experimental da Embrapa Pantanal, localizado no Pantanal da Nhecolândia, em Mato Grosso do Sul, onde são desenvolvidas pesquisas direcionadas à sustentabilidade do bioma.

A planta
A Ipomoea pantanalensis é uma espécie da família da batata-doce. "É um cipó, bastante delicado e ornamental, com flores lilases", descreve Catia. Quando esteve no Brasil, Wood convidou Catia a descrever a espécie com ele. "Passei a examinar os exemplares que tínhamos, fiz medições das partes da planta e descrevi sua morfologia. Recebemos uma desenhista da Bolívia que examinou o material com lupa para produzir a ilustração botânica detalhadamente, a qual fez parte do artigo publicado", conta a pesquisadora.

O reconhecimento de uma nova espécie de planta está condicionado à publicação em uma revista botânica indexada, preferencialmente em inglês. O artigo científico deve conter a ilustração com escala do material botânico, com detalhes de partes da flor, pelos, folhas, uma descrição do habitat em que ocorre e detalhes morfológicos que a diferenciem de outras espécies similares.

Para fazer essa descrição, Catia consultou os três materiais do herbário: dois depositados por Arnildo Pott e um exemplar coletado por Márcia Gasparini, estagiária de Pott. A descoberta também chama a atenção para a importância da informatização dos dados das coleções botânicas, que permite a interação entre pesquisadores de todo o Brasil e de outros países, contribuindo para o avanço do conhecimento.