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CRIMES QUE ABALARAM CORUMBÁ: O MAIOR CRIME DO SÉCULO XX EM CORUMBÁ!

Fonte: Da Redação em 08 de Janeiro de 2018

Arquivo Correio de Corumbá

O DIA EM QUE CARIVALDO SALLES ASSASSINOU O VEREADOR EDÚ ROCHA NA SAÍDA DA CÂMARA MUNICIPAL.

Vizinhos a uma distância pequena de cem metros, cem metros era o que dividia o Inspetor da Alfândega de Corumbá, Sr. Carivaldo Salles e o funcionário do então Serviço de Navegação do Bacia do Prata o Sr. Edu Rocha. Nas eleições municipais de 1958 foi eleito vereador pelo então PSD (Partido Social Democrático). Na época a Casa do Barão de Vila Maria era presidida pelo vereador Sebastião de Abreu.

No dia 29 de julho de 1959, Edu Rocha, 37 anos, foi metralhado na saída da Câmara Municipal, depois de denunciar Carivaldo envolvido com o tráfico de carros contrabandeados - os famosos "rabos-de-peixe". A denúncia foi direcionada ao inspetor da Alfândega local Carivaldo Salles. Na época era intenso e famoso o contrabando de cadilacs que entravam pela fronteira Brasil-Bolívia.
De acordo com informações apuradas no jornal O Momento e Revista O Cruzeiro, apontam que já havia ocorrido uma discussão entre Edu Rocha e Carivaldo Salles. Edu havia solicitado a Carivaldo que parasse com o contrabando ou o denunciaria às autoridades policias e à imprensa, como Carivaldo não atendeu seu pedido Edu Rocha denunciou esses descaminhos a um repórter da revista O Cruzeiro e o caso ganhou repercussão nacional e também conferenciou-se com o então senador Filinto Muller no Grande Hotel Corumbá e lá possivelmente Edu Rocha também teria denunciado todo o esquema de contrabando. O contrabando de automóveis era muito comum na época e dizem que os contrabandistas eram protegidos pelas autoridades policiais e políticas.

Em represália conforme apontam as notícias da época, em um carro ocupado por Carivaldo e outro comparsa identificado como Papito metralharam Edu Rocha quando saia da Câmara.

Conforme narra o Jornal O Momento "o Sr. Badeco Pereria da Rocha, irmão do edil falecido, leu através da Rádio Tupi, o telegrama que enviara ao presidente da República Juscelino Kubistchek de Oliveira comprometendo-se a apresentar documentos indestrutíveis capazes de fixar responsabilidades da execução".

Depois da denúncia na revista O Cruzeiro, o caso ganhou ainda mais repercussão nacional após o assassinato e eram inúmeros os veículos de informação que pediam por justiça. O inquérito já possuía mais de oitenta páginas datilografadas e vinte e uma testemunhas haviam sido ouvidas.

Morreu aos 37 anos de idade e foi sepultado às 16 hs do dia 30 de julho no cemitério Santa Cruz. Carivaldo Salles apresentou-se às autoridades somente no dia 5 de agosto, uma semana após o assassinato, ele dirigiu-se ao 17° Batalhão de Caçadores a noite e acompanhado de seu advogado Luiz Freitas, apresentando-se ao coronel Hermenegildo do Nascimento.

De acordo com o Jornal O Momento, após apresentar-se "Feita a apresentação a autoridade procedeu-se ao interrogatório do acusado do qual até o momento nada transpirou, já que o Sr. Carivaldo negou o crime pois logo em seguida ao interrogatório entrou até o xadrez da Delegacia onde o Dr. Luiz Freitas avisou aos detidos que ali se encontravam por suspeitas de estar envolvido no crime do dia 29 e que provavelmente hoje estes seriam libertados. Nesta oportunidade o Sr. Carivaldo após cumprimentar seus amigos ali detidos fez algumas recomendações ao Sr. Valdemar para que este lhe levasse hoje ao 17° Batalhão alguns objetos de uso pessoal"

Carivaldo permaneceu alguns dias detido para o andamento das investigações e negou até o fim a autoria do assassinato de Edu Rocha, sendo absolvido no júri popular.

O Dr. Carlos Bobadilla Garcia relata sua participação no Tribunal do Júri que tinha como réu Carivaldo Salles sob a acusação do assassinato de Edu Rocha: "No intervalo concedido pelo magistrado presidente daquela sessão na sala dos advogados, então existente do antigo Fórum de Corumbá, onde atualmente estão instaladas as delegacias de polícia, na Rua Major Gama , o Dr. Alfredo Tranjan comentando a respeito do calor abrasador da época, dizia-me ele que havia ficado impressionado com a simpatia e educação do povo hospitaleiro de Corumbá e do tratamento fidalgo recebido dos colegas de trabalho da Cidade Branca"

Cariavaldo foi exonerado do serviço público e mudou para a cidade do Rio de Janeiro onde não se teve mais noticia dele, viúva de Edu Rocha a Sra. Eunice Ajala Rocha e sua filha Marilia Rocha, que na época da morte de seu pai tinha 12 anos, batalharam até o fim, porém sem sucesso para que a justiça fosse feita.

O jovem Edú Rocha, o túmulo no cemitério Santa Cruz, placa da Rua Edu Rocha, a viúva Eunice Rocha consolando a filha Marília e o cortejo fúnebre que comoveu Corumbá.

REVISTA O CRUZEIRO
A maior revista do Brasil nos anos 50 e 60, dos Diários Associados do jornalista Assis Chateaubriand, publicou em sua edição do dia 04 de junho de 1960, no final de uma matéria sobre os maiores crimes que abalaram o país, o seguinte tópico:

Carivaldo Salles, ex-inspetor da Alfândega de Corumbá, que metralhou a queima-roupa o Vereador Edu Rocha, do PSD daquela cidade, por ter denunciado publicamente o contrabando de automóveis na fronteira Brasil - Bolívia, continua à solta. Por quê? Porque em Corumbá não houve juiz, entre 5 ou 6, que se animasse a dar andamento ao processo, "por covardia ou por interesses menos confessáveis", segundo as corajosas palavras do Desembargador Barros do Valle, do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso. Em compensação, um dos juízes, que deixara o processo encalhar, iniciou ação contra a viúva de Edu Rocha, porque ela teria distribuído folhetos com as desassombradas palavras do Desembargador Barros do Valle. Mais uma vez, a vítima é castigada e o criminoso recebe o prêmio da impunidade.

Episódio na Câmara que pode ter motivado o assassinato de Edu Rocha!
Após aberta a sessão extraordinária da Câmara Municipal de Corumbá, foi dado o direito de resposta ao vereador Edu Pereira Rocha, que inclusive foi registrado na ata n° 475 do dia 29 de julho de 1959. Edu Rocha fez seu pronunciamento devido a vários comentários sem fundamento dirigidos a sua pessoa e ao inspetor da Alfândega de Corumbá, Carivaldo Salles, em virtude do projeto apresentado pelo vereador Geraldino Martins de Barros que propunha nomes de cidadãos corumbaenses ou não para nomes de ruas e alameda, entre eles o falecido pai de Carivaldo Salles, que também tinha pertencido a Alfândega. Edu Rocha tinha em mãos no plenário, um exemplar do jornal Folha da Tarde, que mencionava que Edu Rocha era contra pôr o nome do falecido pai de Carivaldo Salles em alguma rua, alameda ou praça da cidade, por achar que existiam outras pessoas mais merecedoras do que ele para serem homenageadas. A matéria publicada gerou muitos comentários devido ao seu fundo conotativo e aos comentários tendenciosos, o que pode ter sido o estopim que culminou com o assassinato de Edu Rocha. Confiram a seguir a ata dessa sessão.

"Continuando a sua oração, o vereador Edu Pereira Rocha afirmou que nunca fora contra a designação dos nomes das ruas, alamedas e praças, constantes do projeto do vereador Geraldino Martins de Barros e que era para ele uma honra apoiar o referido projeto, uma vez que os nomes apresentados são de homens que muito fizeram pelo bem e pelo progresso de Corumbá, podendo citar em especial o nome do Sr. João Bernadirno Alves de Couto, um corumbaense digno de ser homenageado. Quanto aos outros nomes disse ainda o orador, que tinha o seu apoio porque foram apresentados pelo vereador Geraldino Martins de Barros e eram realmente merecedores da justa homenagem e que não era do seu feitio desfazer de ninguém, especialmente de pessoas já falecidas. Frisou o vereador Edu Rocha com bastante firmeza que aquela sessão aberta a ele dirigida pelo signatário era fruto de intrigas e que a informação dada sobre o caso fora deturpada, tendo havido um completo engano nas referidas informações, pois houvera dado parecer contrário ao assunto constante do projeto, o que deu motivo às controvérsias.

O vereador Edu Rocha usou tons elevados em sua oração e terminando disse que lamentava o acontecimento. Em seguida, falou o vereador Achibaldo Araújo Andrade dizendo-se solidário ao seu colega Edu Rocha, devido à deturpação da verdade e que o Sr. Carivaldo Salles havia sido mal informado, o vereador Archibaldo disse que após ouvir o pronunciamento de Edu Rocha ele transmitiria as informações a Carivaldo Salles".
(Pesquisado por Carlos Corrêa da Costa)

Episódio ocorrido com o casal Rocha
A poucos meses do assassinato do vereador Edu Rocha, em fins da década de 1950, um imigrante palestino, então recém-chegado, aportara no início da manhã à casa do renomado político para, como mascate, oferecer suas mercadorias na típica mala de fibra, tendo sido recebido pela esposa. Como o mascate ainda não falava o português, algum conterrâneo lhe fizera um texto grafado em árabe com o que deveria ser um preâmbulo de abordagem em português para expor os seus produtos. Contudo, por brincadeira de mau gosto ou pura má-fé, o conterrâneo do mascate, depois do cumprimento inicial, escrevera algo como "Você quer dormir comigo?", em vez de solicitar permissão para iniciar a demonstração de seus artigos à cliente. Tomada pelo susto (imagine-se o impacto daquelas palavras na metade do século passado), a professora Eunice pediu ao mascate que repetisse o que lera, e ele, com a inocência de quem não sabia o que estava lendo, insistira na proposta indecorosa. Ato contínuo, ela pediu licença para chamar o esposo, que se preparava para sair, que, depois da leitura do cumprimento com a dificuldade característica de um recém-chegado ao país, ouviu atônito a repetição do bizarro "Você quer dormir comigo?". Mal refeito da inusitada proposta, pediu à esposa que servisse um café ao mascate e depois de telefonar para alguém convidou o imigrante que o acompanhasse para poder compreender seu propósito. Algumas quadras depois, chegam a um tradicional estabelecimento de um imigrante libanês em pleno centro da cidade e Edu Rocha pede ao mascate que voltasse a ler sua "cola" diante do comerciante, que ruborizado lhe traduziu os termos de sua proposta. Envergonhado, o mascate pediu, de joelhos, perdão pelo ocorrido e se despediu deles, apressadamente, à procura do conterrâneo irresponsável, que por sua brincadeira poderia ter lhe causado a própria morte se não tivesse a sorte de ter sido recebido por esse casal afável, por um homem equilibrado e ponderado como era Edu Rocha.

Eunice Ajala Rocha, viúva de Edu Rocha
Eunice Ajala Rocha, docente aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, lotada no então Centro Universitário de Corumbá, ela é muito mais que uma proba ex-secretária de Educação e Cultura do município da primeira gestão do prefeito Fadah Scaff Gattass, por indicação do então vereador peemedebista Valmir Batista Corrêa. Como pesquisadora resgatou o Siriri e o Cururu para a cultura regional e revelou para a posteridade talentos até então anônimos, como o cururueiro Agripino Magalhães Soares, o da viola de cocho (celebrizado pela saudosa Helô Urt quando gestora da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque).
Ahmad Schabib Hany

Depoimento
Por: Valmir Batista Corrêa*
Quando cheguei a Corumbá, em pleno feriado da Semana Santa de 1971, para conhecer o antigo Centro Pedagógico de Corumbá - Universidade Estadual de Mato Grosso (hoje, UFMS), conheci meus primeiros e grandes amigos. Havia uma aluna do curso de História, onde eu passei a dar aulas, de nome Eunice Ajala Rocha, uma liderança entre seus colegas. Era pessoa bem conhecida e respeitada na cidade, diga-se de passagem, numa época em que todo mundo se conhecia. Sua família, pelo lado paterno provinha de Cáceres, cidade quase gêmea de Corumbá e descendia do valoroso coronel Ricardo Franco de Almeida Serra, português que comandou o Forte de Coimbra nos primórdios da colonização da região, ainda no período colonial. De voz mansa, passo cadenciado, usava sempre do bom senso para defender seus pontos de vista. Foi a amiga de primeira hora e do primeiro dia em que cheguei à cidade, solidária nas minhas lutas e idéias (nem sempre concordava com elas e assim sendo dirigia-me, em resposta, um sorriso enigmático de reprovação). Nunca deixou de manifestar seu apoio e amizade, até nos momentos em que me meti em enrascadas políticas.
* Valmir Batista Corrêa, professor aposentado da UFMS, ex-vereador em Corumbá, escritor e historiador, hoje radicado em Campo Grande.

Que fim levou Papito o pistoleiro que metralhou Edu Rocha?
Ainda com relação à matéria que publicamos sobre o assassinato do vereador Edu Rocha em 1969, inserida na edição passada, recebemos mais alguns detalhes desse crime que teve repercussão internacional.

Conforme publicamos, o vereador do PSD corumbaense foi metralhado na noite de 29 de julho do mencionado ano, ao sair do antigo prédio da Câmara Municipal de Corumbá, na rua 15 de Novembro, entre as ruas 13 de Junho e Dom Aquino. Era inverno e caia uma garoa fina sobre a cidade. De dentro de um carro de luxo importado, o guarda-costas de Carivaldo Salles, inspetor da Alfândega deu uma rajada de metralhadora na direção de Edu Rocha, 37 anos, que ficou estirado no chão, tendo seu terno branco ficado banhado de sangue, com uma pistola na cintura que carregava devido já ter sido ameaçado, inclusive pela imprensa. Dizem que um jornal da época, A Tribuna ou O Momento teria publicado uma Declaração a Praça assinada pelo Carivaldo Salles, dizendo que se o vereador continuasse tecendo críticas contra sua pessoa e a memória do seu pai, ele NÃO responsabilizaria pelos seus atos. Falam que uma homenagem seria prestada ao pai de Carivaldo que também foi da Alfândega, hoje equivalente a Receita Federal. Uma placa com seu nome seria colocada num logradouro público na região do Porto Geral, mas disseram que Edu Rocha falava em plenário que em Corumbá tinha muita gente mais merecedora do que o genitor de Carivaldo, o que fez aumentar à ira deste.

Edu Rocha era funcionário do Serviço de Navegação da Bacia do Prata(SNBP), órgão vinculado ao Ministério dos Transportes, hoje uma empresa particular a CINCO, que fica bem na divisa Corumbá-Ladário, onde exercia um cargo de chefia. Sua viúva professora Eunice Ajala Rocha foi dedicada e eficiente secretária de Educação da Administração Fadah Scaff Gattass e faleceu no início de 2013. A única herdeira, Marília Rocha é radialista que trabalhou na Rádio Difusora aqui da Capital do Pantanal e depois se mudou para a capital paulista onde por muitos anos foi locutora da Rádio Mulher e de outras emissoras, residindo atualmente no litoral paulista. Já o Juarez, filho do Carivaldo, falam que teria sido jogador profissional de futebol do São Cristóvão do Rio de Janeiro. Deixou também uma filha.

E o Papito?
Segundo informações extra-oficiais, logo após o rumoroso crime o pistoleiro paraguaio sumiu da cidade e dizem que anos mais tarde estava num bar de Aquidauana-Mato Grosso do Sul, jogando bilhar(Sinuca) e quando ia dar uma tacada, um entregador de bebidas carregando um engradado apoiado em um dos ombros, sem querer, deu um esbarrão no braço do Papito, fazendo com que o taco espirrasse. Ato contínuo teria partido furioso com o taco pra cima do entregador de bebidas que viu que ele portava arma de fogo e como também estava armado, deu um tiro mortal no matador de Edu Rocha, valendo salientar que esse episódio não tem nada a haver, nenhum relacionamento com a morte do então vereador de Corumbá. Portanto, esse teria sido o fim do valentão, segundo comentários dos mais antigos.

Quanto ao mandante do assassinato de Edu Rocha, o Carivaldo Salles, foi embora com a família para o Rio de Janeiro e hoje se estiver ainda vivo, deve estar beirando os 100 anos.
Da Redação

Agradecimentos
Esta matéria especial intitulada: O Maior Crime do Século XX em Corumbá está sendo inserida nesta edição, graças à imprescindível colaboração que recebemos dos abaixo nominados.

Administração do Cemitério Santa Cruz; do responsável pela Biblioteca do ILA-Instituto Luiz de Albuquerque, Jornal O Momento, Revista O Cruzeiro, Jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro, a Mesa Diretora e setor de Arquivo da Câmara Municipal de Corumbá, ao Dr. Carlos Bobadilla Garcia, Procurador e Promotor de Justiça aposentado, ao professor Schabib Hany e ao Dr. Roberto Ajala Lins, advogado da Comarca de Corumbá. Fotografia: Luiz Fernando Licetti. Reportagem: Carlos Alberto Corrêa da Costa e Farid Yunes. Diagramação: Alle Yunes. Supervisão: Adolfo Rondon. A DIREÇÃO

Matérias veiculadas no Jornal Correio de Corumbá nas edições:
nº 2652 do dia 16 a 22 de novembro de 2013
nº 2653 do dia 23 a 29 de novembro de 2013
nº 2655 do dia 07 a 13 de dezembro de 2013